24/02/2018

Se Ficar o Bicho Come, se Correr o Bicho Pega

Jorge Miguel Mayer Jorge Miguel Mayer
"Os sistemas políticos, dominados por partidos corrompidos aliados á corporações interessadas, se transformam em balcão de negócios e apanágio do crime. "

Eu sou livre

Tu és livre

Viva a livraria!

(autor desconhecido)

Embora gostasse de desenvolver uma série de temas como o curso sobre Nova Friburgo que darei; a peça “Miguel das Rosas, O último Heterônimo de Fernando Pessoa”, que vou apresentar no dia 11 de fevereiro, na loja Ecoarte, em São Pedro, fiquei inteiramente tomado pelo destino do país. Para onde vamos? Recolho a afirmação lúcida de Luis Gonzaga Beluzzo, doutor em economia, às vésperas do julgamento de Lula,

“Defender Lula não é coisa de petista, nem de esquerdista, é atitude de gente sensata, gente que sabe que o que está em jogo não é corrupção, apartamento triplex, sítio, pedalinho,, gente que sabe que o que está em jogo é o sistema democrático brasileiro, o que está em jogo é a falência do sistema judiciário brasileiro, que se tornou partidário e tão ou mais corrupto que o sistema político. O que está em jogo é a imagem do Brasil perante o mundo, porque nem mesmo os que acusam Lula estão convictos de que há provas de corrupção do ex-presidente. Vamos ser honestos, o processo é político e tem por objetivo tirar a maior liderança mundial da esquerda das eleições num país que vive um golpe de estado que tirou do poder uma mulher honesta, uma mulher nunca acusada, julgada e condenada por corrupção.”

E o resultado estamos vendo e sentindo: o país deixa de ter uma projeção mundial para se tornar uma espécie de colônia. E daqui para frente só se pode pensar que aumentarão a pobreza e a entrega de nossas riquezas. Que pode o Governo, bem como o “establishment” oferecer? Só sangue, desigualdades, preconceitos, monopólios de comunicação, transporte, negociatas etc. Enfim, dificuldades. Os sistemas políticos, dominados por partidos corrompidos aliados á corporações interessadas, se transformam em balcão de negócios e apanágio do crime.

Fico pensando como você, que sonha mudar isto tudo; que imagina uma sociedade melhor, em meio a uma natureza mais compreendida e amada. Vamos fundo na análise da cumplicidade com este estado de coisas em nós mesmos. No dizer do Cristo: removamos a trava de nosso olho ao invés de considerar sempre o cisco no olho do outro. .Difícil, mas mantenhamos o amor: não respondamos ao ódio e à ignorância com ódio. A paz só se constrói através da paz.

Há um ditado na roça que diz que é preciso quebrar para consertar. Em outras palavras: é preciso viver o problema, sofrê-lo para superar. Meu padrinho dizia “sem apanhar ninguém aprende”. Estamos apanhando, mas aprendendo, e tenho a certeza de que vamos superar esta ofensa que não é só nacional e sim mundial. “Perdoai,: eles não sabem o que fazem”.

Nada nos vem sem esforço. Isso, que é verdade no plano material, é também verdade no plano social. Se temos algum direito social, este custou luta. O que não sabíamos é que, sem luta, vamos retroceder. Pode ser útil aos donos do capital, terceirizar, “uberizar”, mas esta não é a solução social. Estamos vendo que a chamada direita conspira sempre, recorrendo a visões preconceituosas, a chavões.. Um dos mais perversos é considerar a política, coisa de políticos. Política está em toda parte: num clube, numa empresa, em casa. Renunciar a isto é entregar o poder de decisão a um terceiro, que não nos considera. “O homem é um animal político” . É inteiramente falsa a idéia de que somos muito ignorantes, daí não termos opinião. É falso também que política é coisa de corrupto. Nada precisa ser assim!

Estamos assistindo a um país de mais de duzentos milhões ser reduzido a uma Belíndia, (mistura da Bélgica com Índia) como já foi chamada. Considera´-se que se vive o círculo vicioso da pobreza: É pobre, e porque é pobre continua pobre; que o progresso vem do exterior. Parafraseando Oswald de Andrade, aprendemos com o exterior e o assimilamos, mas sem perder a autonomia de decisões e sem perder de vista as peculiaridades das condições do País. O saber, a tecnologia não é patrimônio de um país, é patrimônio do mundo, da espécie humana. Acabemos com o complexo de vira-lata!

É certo que tudo requer estudo e pesquisa: quanto mais estudarmos, mais se verá. Quanto mais será coletiva a nossa força, maior é o rendimento. Ao invés de homens ilustres, teremos povos ilustres. Daí a educação popular. Como dizia nosso saudoso Darcy Ribeiro ­ “a crise da educação no Brasil é um projeto”▬ para que seja castrada a indignação, a capacidade indagativa e a busca de soluções.

É ai que entra a força da livraria, a base da nossa epígrafe. O Brasil, embora tenha 11,8 milhões de analfabetos de 15 anos ou mais (IBGE) e uma população de 110 milhões adulta (de 15 a 64 anos) de analfabetos funcionais, seja pelo custo do livro, seja por falta de soluções democráticas, como bibliotecas, o fato é que se lê pouco, quase não se tem acesso a livros, e a internet é usada para uma comunicação instantânea, pouco se utilizando dos recursos de conhecimento que ela faculta.

É por isto que saúdo o esforço de livrarias por este interior afora Saúdo a Ecoarte, livraria da Zelma Gonçalves em São Pedro da Serra; a escrita lúcida do romancista e ensaísta, Ronaldo Lima Lins, que recentemente escreveu um livro chamado “Ode ao Livro”. Houve, por obra de uma política cultural, que hoje, com o Governo Temer, está abandonada, os chamados Pontos de Cultura, que levaram ao interior o diálogo, a criação e souberam valorizar a cultura popular, tão subjacente na formação nacional de um povo.

Por: Jorge Miguel Mayer

O autor é doutor e professor de História da Universidade Federal Fluminense

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