24/02/2018

Política, Fundamentalismo e Anacronismo

Ricardo Lengruber Ricardo Lengruber
"Eis o desafio do nosso tempo: romper com fundamentalismos e anacronismos, ajustar lentes, focar a realidade e, acima de tudo, respeitar as identidades."

A vida é uma realidade construída. O que nos sucede, pessoal ou coletivamente, está transpassado pelas mediações e interferências culturais, políticas, econômicas etc. A vida não é resultado mecânico de impulsos naturais, genéticos ou psicológicos. Não há, por assim dizer, predeterminações.

O conhecimento - mesmo aquele de origem não formal - é uma das tantas formas de apreensão da realidade. Captação da realidade que gera sentido para a mesma e que outorga identidade.

Essas “lentes” são religião, política, moral, família etc. Lentes são decisivas no processo de construção da personalidade e da tomada de decisões. Tornam-se parte integrante daquilo que somos.

Como tudo que integra a identidade, as lentes devem se permitir sofrer mudanças e se ajustar com os novos cenários que têm diante de si.

O foco é essencial para que o que deve ser visto o seja com a maior claridade possível. Lentes devem ajudar a ver melhor ou permitir que o que não é possível de ser visto a olho nu seja captado por intermédio delas.

Essencial é que se atente dia após dia de modo que as lentes sejam adequadamente calibradas.

Por conta disso tudo, dada a constante instabilidade das lentes e dos cenários, é que se corre o risco de se cometer equívocos especialmente nocivos a forma como vemos e vivemos a realidade. Há dois especialmente ruins.

O primeiro tem a ver em confundir a lente com a realidade e torná-la fim em vez de meio. Quando isso ocorre, há uma profunda diminuição da magnitude da vida e, ao mesmo tempo, um superdimensionamento dos discursos e das ideias em detrimento dos fatos e das pessoas. Sempre que isso se dá afundamos no fundamentalismo.

Fundamentalistas são os discursos que não conseguem ver o que há no derredor. É a postura de quem se sente no centro do mundo e dono da verdade. As religiões são, potencialmente, fundamentalistas, porque se arvoram como salvadoras das almas. Mas há fundamentalismos em tudo: de futebol a política, de economia a cultura.

O outro equívoco devastador é não ter a sensibilidade de focar a lente para atender as demandas do que deve ser visto e captado. E aí ocorre a distorção. A realidade vista distorcidamente é pior do que não percebida ou captada fantasiosamente.

A distorção ocorre quando a lente de um tempo é usada noutro e as conclusões dela tiradas são absorvidas ingênua e, talvez, inocentemente.

Palco privilegiado disso são os discursos políticos. Quando ideias muito fortes de um tempo se eternizam como se fossem cabíveis em qualquer cenário. A isso, dá-se o nome de anacronismo.

É como se gente da terceira idade ainda se vestisse com a moda dos adolescentes de seu tempo.

O que, curiosamente, não deixa se ser o mesmo fundamentalismo.

Com mentes fundamentalistas não há espaços para discussão. Suas lentes se tornaram opacas com o tempo e já não são capazes de mediar a compreensão da realidade. Vivem noutro mundo e acreditam nele como se fosse o único possível.

Eis o desafio do nosso tempo: romper com fundamentalismos e anacronismos, ajustar lentes, focar a realidade e, acima de tudo, respeitar as identidades.

Por: Ricardo Lengruber

Ricardo Lengruber é professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona História e Filosofia na Universidade Cândido Mendes e nas Faculdades Bennett.”

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