22/02/2018

Consequências da globalização no nosso sistema de crenças

Dib Curi Dib Curi
"Jamais se viu no Brasil um tamanho empobrecimento cultural e subjetivo. O senso crítico, a criatividade e a politização positiva do nosso povo aproximaram-se atualmente do grau ZERO."

A globalização nos trouxe algo que, talvez, não esperássemos. Com ela, padronizamos um a experiência e o jeito de viver. Em todo lugar, principalmente nos grandes centros, vemos a mesma rotina da maioria: Acordar, enfrentar o transito, ir para trabalhos repetitivos e enfadonhos, ficar sentado ou em pé por horas a fio, visitar shoppings, desejar sem limites, comprar e ver televisão. A rotina mental parece ser a mesma: ansiedade, preocupações materiais e segurança. Tanta massificação que todos os eventos de diversão são, em pequena ou grande medida, eventos gastronômicos ou alcoólicos.

No Brasil, grande parte das pessoas que não ascenderam socialmente e que ainda sofrem necessidades tem seu foco no desejo de adquirir estas mesmas rotinas e valores estabelecidos. Que as pessoas não tenham oportunidades na vida, o que comer e o mínimo para sobreviver será sempre o absurdo maior. Mas o que estamos dizendo é que, nos últimos 20 anos, a principal consequência da ascensão social no Brasil foi a explosão no consumo de carros e TVs de plasma, ou seja, a inclusão de muitos no mesmo sistema de crenças e valores globais.

Por outro lado, jamais se viu no Brasil tamanho empobrecimento cultural e subjetivo. Senso estético nem pensar. Já o senso crítico, criatividade e politização positiva do povo aproximam-se do grau ZERO. Senso ético e moral, nem se fala, bom grado as conversas intelectuais de meia dúzia de letrados. A desorientação só não está pior, pasmem, graças às igrejas evangélicas que, apesar de todos os pesares, ainda disseminam um mínimo de honra e dignidade (Timós). Outro dia, prestei atenção numa letra de Funk que incitava ao estupro. Chamava-se “Só Surubinha de Leve”, incitando embebedar mulheres, estuprá-las e abandoná-las na rua. Quanto à violência, ela avança sem limites.

Não para aí. A apatia do povo brasileiro é impressionante com a estratégia dos segmentos endinheirados globais em enfraquecerem nossa democracia. O mais engraçado é que este empobrecimento político-cultural e subjetivo se deu no período de governo da esquerda brasileira, justamente, aqueles governos que prometiam alavancar educação e cultura, mas se resumiram a uma postura de inclusão material de milhões no sistema de crenças vigente sem a menor iniciativa de mudança na maneira como o sistema funcionava ou iniciativas de ampliar os horizontes mentais das pessoas. Apenas incluir no sistema (educacional inclusive) sem questionar ou mudar. Esta é uma das causas da minha total decepção com os últimos capítulos de nossa política tupiniquim.

Se as ideologias coletivistas de esquerda não foram capazes de nos proteger contra as ideologias mega individualistas da direita, os próximos capítulos prometem ser de massificação e padronização ainda maior, tudo em nome da previsibilidade do lucro.

No fim das contas, por conta da globalização do espetáculo e do consumo, a sociedade acabou por ser o reflexo perfeito do sistema de crenças de um tipo psicológico bem rasteiro e comum: o indivíduo superficial, puxa saco dos poderosos, medroso, frustrado, profundamente aquisitivo e ansiosamente desejoso de preencher o vazio interior que não cessa.

Por isto, de que adianta criticar o capitalismo, quando somos capitalistas por dentro? De que adianta criticar o mundo do Ter se cada um só se sente seguro num processo interminável de aquisição monetária ou de status? De que adianta criticar o consumismo se somos exemplos de um hedonismo sem limites na necessidade do prazer constante? De que adianta criticar a destruição ambiental se nos sentimos indivíduos cada vez mais isolados tanto da comunidade como da natureza? Pois bem: Fundado como doutrina à partir de Descartes e fundamentado no Iluminismo, o individualismo mostra seus reais alicerces na areia movediça. O ser humano, desligado da natureza e da comunidade à qual pertence, se esforça por mascarar sua solidão, sensação de desamparo e insegurança bolando passatempos constantes e maquinando obsessivamente uma pseudo segurança baseada na competição e na corrupção de seus verdadeiros propósitos.

A consequência já é visível: a luta de todos contra todos e a luta de sí para si mesmo, a famosa agonística dos gregos, só que horizontal e irreconciliável. No plano psicológico acontece uma profunda degeneração do caráter; medo, depressão e esquizofrenia. No plano social, grassa a anti ética, o egoísmo e o “estado de natureza”, do qual nos falou Thomas Hobbes.

Já esmiucei a concepção de Platão sobre a alma e creio ter provado que o capitalismo não está fora de nós mesmos, mas dentro. Ele é o sistema que melhor atende os desejos e as expectativas do ser humano, tal como ele é atualmente. Platão dizia que a alma é dividida em três: o Logos (Razão), o Timós (orgulho positivo) e a Epitimia (prazer sensorial). Quando o prazer sensorial e as esperanças materiais venceram a luta no interior do humano, aconteceram as revoluções burguesas do séculos XVII e XVIII.

A mudança não é social, mas no interior de cada um. O individualismo, o prazer sensorial e a concupiscência nos levarão à dias difíceis. O verdadeiro Logos reside na compreensão de um Universo fértil em bondade, beleza e justiça que nos contém, mas que respeita a nossa liberdade para cultivar o nosso próprio mundo. E colhemos aquilo que plantamos...

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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