27/01/2018

Ressentimentos

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Daqui saiam tabaco, açúcar e aguardente para serem trocados por escravos africanos que eram enviados para as minas de prata de Potosí. "

Estamos vivendo o momento histórico da desconstrução da política externa Norte-americana vigente desde o fim da Segunda Guerra Mundial e que norteou durante setenta anos os princípios das relações internacionais contemporâneas.

Assim, o Ocidente vai desistindo de suas ambições geopolíticas, o que abre espaço para a nova hegemonia compartilhada por China e Rússia. Essas duas potências não comungam das disfuncionalidades da democracia representativa que o Ocidente quis empurrar indiscriminadamente para todos os povos do Planeta e que se encontra hoje em crise nos próprios países da Europa e da América do Norte.

O palco das disputas na passagem para esse novo período histórico são as velhas e disputadas encruzilhadas geopolíticas vitais para o mundo: o Corredor Sírio, a passagem entre o Mar Negro e o Mediterrâneo (Tróia/Constantinopla) o Afeganistão, o Mar da China e a Península da Coréia.

O Ocidente vai mergulhando lentamente na sua nova Idade Média com seu fanatismo religioso e seu medo de epidemias. Enquanto isso, os povos que floresceram durante a Idade Média (chineses, mongóis, indianos, bizantinos, árabes e ameríndios) vão recuperando seu ímpeto e vigor, reemergindo e reocupando seus espaços.

Por isso, se quisermos pensar no novo equilíbrio mundial e em como ele pode representar uma oportunidade para a paz, precisamos estar conscientes dos ressentimentos carregados pelos povos antes dominados pelo Ocidente.

Comecemos pela China, o grande candidato ao posto de maior potencia do século XXI. Juntamente com a Índia, a China detinha dois terços da economia mundial antes das viagens do descobrimento e da revolução industrial. Foi da China que vieram a pólvora, a bússola e o papel (livros), os quais possibilitaram as conquistas coloniais e a revolução científica. Os chineses foram humilhados pelos ingleses em episódios como o da Guerra do Ópio. Souberam ter flexibilidade para absorver elementos ocidentais como o marxismo, a ciência, a indústria e o livre mercado. Mas também souberam manter alguns princípios ancestrais como o confucionismo, o que os fez capazes de compor com sucesso uma burocracia administrativa.

Os eslavos, representados pela Rússia, têm sua origem ligada à Civilização Bizantina, formada por cristãos ortodoxos que se separaram do Império Romano do Ocidente, o qual teve seu fim no século V causado pelas invasões bárbaras. Constantinopla, ou Bizâncio, durou mais mil anos do que Roma até cair em 1498. O Ocidente não reconhece a importância do Império Bizantino, que defendeu a fronteira leste da cristandade europeia enquanto ela gestava seus estados nacionais na Idade Média. Da mesma forma, os Russos não foram reconhecidos pelos seus esforços e sacrifícios para a vitória dos Aliados nas Guerras Mundiais, ficando o crédito com os americanos, que foram os menos sacrificados.

Também temos uma dívida de reconhecimento com o Islã. Se houve o Renascimento, foi graças aos árabes mulçumanos que traduziram e guardaram os escritos dos filósofos gregos e transmitiram-nos aos europeus medievais. Além do mais, os momentos de melhor convivência entre os povos das três religiões monoteístas se deram no tempo dos califados mulçumanos, principalmente nos da Península Ibérica.

Os negros africanos têm motivos claros para carregarem muito ressentimento. A violência na periferia das grandes cidades é a ferida aberta que denuncia a falha das sociedades ocidentais de reparar o mal feito a essas pessoas e seus descendentes. O trabalho escravo está na base da acumulação primitiva do capital. A cidade do Rio de Janeiro tem um papel importante nessa história, pois ostenta o triste título de ter sido o maior porto negreiro fora da África do século XIX. Daqui saiam tabaco, açúcar e aguardente para serem trocados por escravos africanos que eram enviados para as minas de prata de Potosí. Daí o metal ia, via México, para a China, onde era trocado por porcelanas e especiarias que seriam comercializadas na Europa. Assim nasceu a globalização.

Nas Américas os Europeus encontraram, no século XV, civilizações como as dos astecas, dos incas e dos maias, que estavam no estágio das primeiras civilizações do Egito e da Mesopotâmia. O calendário maia, muito próximo da estrutura do I Ching Chinês, é, para mim, um dos maiores feitos da humanidade.

Os europeus encontraram também nas Américas povos que viviam em estado correspondente ao dos caçadores coletores do início da humanidade. Andando nus e sem a necessidade do trabalho árduo imposto pela agricultura, a pecuária e a indústria, os índios viviam na beira dos rios e ao longo da costa. Segundo o antropólogo Pierre Clastres, não é que eles não tivessem atingido o estágio da civilização. Eles, na verdade, rejeitavam a civilização, o que Clastres chamou de “sociedade contra o estado”. Os índios foram dizimados por epidemias trazidas pelo homem branco.

Os ressentimentos são aplacados com reconhecimento.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

VOLTAR À PÁGINA INICIAL