27/12/2017

O Segredo de Quem Somos Nós

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"“Se a pessoa quer viver bem, ela deve praticar Ética. É assim que a mente transforma o mundo: você evita fazer o mal, você traz benefícios para os outros e assim sua experiência tende a melhorar”. "

Há alguns anos atrás o filme “Quem somos nós” fez enorme sucesso entre pessoas que conheço e com público em geral. Na época, muitos ficaram bastante excitados com o fato de um filme como este estar em cartaz nos cinemas. Quando uma amiga me perguntou se tinha gostado do filme, respondi que achei esquisito o tipo de mensagem que se buscava passar através de estudos científicos da física quântica e da neurociência aliados a espiritualidade. Achei que eles forçavam um pouco a barra para tentar corroborar uma visão espiritual. E quando fui pesquisar na internet “quem eram eles” (pois, durante o filme não se sabe quem está falando), vi que não estava enganado ao achar o filme uma possível confusão pseudo-científica espiritual.

Quando “Quem somos nós” foi lançado alguns membros da comunidade científica mundial afirmaram: “O filme é um atentado contra a ciência. É obviamente falho e completamente sem dados. Estou particularmente preocupado com a cena em que a protagonista lança longe seus remédios. Esta idéia ‘new-age’, de que o pensamento positivo pode substituir a medicina é especialmente perigosa”, diz Raj Persaud, psiquiatra no Maudsley Hospital em Londres. Tim Evans, da Universidade de Londres, disse que “O filme é perigoso porque explora o desejo genuíno das pessoas em entender as grandes questões da vida e dá às respostas uma falsa aparência científica”. (The Guardian)

Outro filme com o mesmo teor apareceu nas telas dos cinemas alguns anos depois com enorme sucesso o que fez surgir outras sequências, além de toda uma literatura sobre o tema. “O Segredo” é como um “Quem somos nós II”, trazendo, ao meu ver, além de uma deturpação científica, uma deturpação filosófica com citações de filósofos, cientistas e mestres espirituais fora do seu contexto, tentando, mais uma vez, provar o tipo de espiritualidade proposta pelos produtores do filme. Não sou um grande conhecedor de todas as tradições religiosas, mas conheço um pouco do Budismo e quando vi a deturpação grosseira das palavras do Buda no filme vi que algo bem errado estava acontecendo ali. Como um amigo meu escreveu num artigo:

“Quando as pessoas em geral falam sobre física quântica, hoje em dia, já dá vontade de esconder a cabeça num buraco embaixo da terra.

Há, é claro, as mistificações mais grosseiras, como “nossa mente faz a realidade”, ao estilo de O Segredo. Se você desejar bem forte, ele vai pedir você em casamento. E então você ganha na loteria. E, é claro, isso no limite se torna um sintoma psiquiátrico: pensamento mágico.

Quando o budismo diz que a mente molda a realidade, está querendo dizer que nossos hábitos mentais, inclusive os desejos, ocultam de nós mesmos coisas que estão na nossa frente e que poderiam muito bem ser melhor usufruídas – para nosso benefício e dos outros. Jamais se quer dizer algo no sentido de pensamento mágico – apenas pensar algo não produz essa coisa. Em certo sentido, pode-se dizer que fica uma marca mental, e daqui há muitas vidas você vai se encontrar preso nas mesmas mesquinharias que desejou nesta – em vez de efetivamente romper suas limitações. Nesse sentido, até pode ser.

Mas, ademais, se a pessoa quer viver bem, ela deve praticar ética. É assim que a mente transforma o mundo: você evita fazer o mal, você traz benefícios para os outros e assim sua experiência tende a melhorar”. Padma Dorje - http://www.budavirtual.com.br/budismo-e-mistificacao-quantica/

Acho delicado abordar esta questão porque lida com as crenças das pessoas e além do mais, “quem sou eu” pra questionar tudo isso? Mas, chegou em minhas mãos um texto de Ken Wilber, respeitado filósofo, cientista e místico, falando sobre o filme “Quem somos nós” que serve como um ponto de vista a ser refletido sobre estes filmes que misturam ciência, física quântica, filosofia e espiritualidade.

E deixo vocês agora com Wilber e sua crítica ao filme “Quem somos nós”.

Crítica de Ken Wilber

(Excerto do livro Integral Spirituality)

tradução: Ari Raynsford

“O surpreendente sucesso desse filme independente mostra simplesmente como as pessoas estão necessitadas de algum tipo de validação para uma visão-de-mundo mais espiritual e mística. Mas os problemas com ele são tão grandes, a ponto de ser difícil saber por onde começar. What the Bleep (Quem somos nós?) foi montado a partir de uma série de entrevistas com físicos e místicos, todos fazendo afirmações ontológicas sobre a natureza da realidade e sobre o fato que – sim, adivinhe – “você cria sua própria realidade”. Mas você não cria sua própria realidade; quem faz isto são os psicóticos. Há no mínimo seis importantes escolas de física moderna e nenhuma delas concorda com as afirmações genéricas e radicais apresentadas no filme.

Nenhuma escola de física acredita que um ser humano possa colapsar a equação da onda de Schroedinger em 100% dos átomos de um objeto de modo a “trazê-lo” para a existência. A física é simplesmente terrível nesse filme, e o misticismo não fica atrás, sendo aquele de uma pessoa (“Ramtha”) que afirma ser um guerreiro de trinta e cinco mil anos de idade proveniente da Atlântida. Nenhum dos entrevistados é identificado enquanto fala, pois o filme deseja passar a impressão de que todos são cientistas muito conhecidos e respeitados. O resultado líquido é um misticismo new age (do tipo “seu ego está encarregado de tudo”) com uma física deplorável (tudo numa forma de mingau Paradigma-415; mesmo SE uma mente humana fosse necessária para “trazer” para a existência um objeto – e até David Bohm discorda dessa idéia fosfórica – mas mesmo se, o ponto seria que essa Grande Mente estaria “trazendo” para a existência TODA a manifestação momento a momento – não apenas trazendo seletivamente para a existência uma coisa em vez de outra, tal como um carro novo, um emprego ou uma promoção – que é exatamente o que o filme afirma; novamente, isso é filosofia do sujeito sob o efeito de esteróides, também conhecida como boomerite).

Física ruim e misticismo fosfórico: as pessoas estão famintas desse tipo de coisa; Deus as abençoe.

Entre o modernismo (e o materialismo científico) e o pós-modernismo (e a negação da profundidade), não sobra nada para alimentar a alma; assim, What the Bleep (Quem somos nos?) teria de ser recebido com um reconhecimento febril. Desculpe-me por ser tão severo com ele, já que, sem dúvida, as intenções são decentes; mas é exatamente esse tipo de bobagem que gera uma inacreditável má fama para o misticismo e a espiritualidade entre os cientistas reais, todos pós-modernistas, e entre as pessoas que conseguem ler sem mover os lábios.”

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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