19/12/2017

Segunda Abolição

Jorge Miguel Mayer Jorge Miguel Mayer
"Pode-se considerar a condição do trabalhador que é obrigado a aceitar baixo salário, sujeito às condições de trabalho que superam as oito horas; a um tempo de transporte penoso, que aumenta em muito as horas em que o trabalhador está sob serviço."

Será sem fim

o sofrer do povo do Brasil?

Nele, em mim, vive o refrão:

as camélias da segunda abolição virão!

(As Camélias do Quilombo do Leblon

Caetano Veloso)

O texto acima se refere a uma canção de Caetano Veloso sobre o quilombo abolicionista, isto é, aquele surgido na fase final da escravidão no Brasil. Ele foi estudado pelo historiador Eduardo Silva, do que resultou um livro, editado pela Companhia das Letras. Uma inovação foi o conceito de 2ª Abolição, numa clara postura de luta contra a escravidão atual.

Pode-se considerar a condição do trabalhador que é obrigado a aceitar baixo salário, sujeito às condições de trabalho que superam as oito horas; a um tempo de transporte penoso, que aumenta em muito as horas em que o trabalhador está sob serviço. Quando chega a casa, só lhe resta ver televisão, tornando-se assim ideologicamente dominado pelas empresas de comunicação. Bastaria examinar estas condições para constar a escravidão moderna.

Porém, o conceito de segunda abolição considera que a primeira abolição não valeu. O escravo não foi indenizado e se viu sem condições sequer de trabalho e de moradia. O escravo não tinha condições de deixar a fazenda ou o emprego. Em meio à crise do café, o ex-escravo simplesmente foi despejado. O trabalho industrial foi feito principalmente pelo operário imigrante, de tal modo que o ex-escravo não encontrou trabalho nem onde morar.

Nasce então a favela, como atesta a pesquisa realizada por Andrelino Campos: “Do Quilombo à Favela – “A Produção do Espaço Criminalizado no Rio de Janeiro”. Aumentou constantemente o número de favelas e a sua população. O autor constata que em 1950, havia na cidade do Rio de Janeiro 59 favelas, reunindo 169 000 habitantes. Já em 1991, havia uma população favelada de 962 000 habitantes em 537 favelas.. Segundo a Internet, o Rio de Janeiro é a cidade com a maior população vivendo em aglomerados subnormais do país, como revela o estudo do Censo 2010 sobre o tema, divulgado pelo IBGE. São 1.393.314 pessoas nas 763 favelas do Rio, ou seja, 22,03% dos 6.323.037 moradores do Rio.

O êxodo rural foi uma causa significativa, porém há muito, a favela se alimenta da própria exclusão urbana e do aumento populacional endógeno da favela. Tudo isto tem a ver com a abolição, pois predomina na favela a etnia negra, que tem uma particularidade no quadro da miséria brasileira. O contingente negro é o mais presente nos extratos inferiores da pobreza: nas prisões, nas favelas, nos trabalhos brutos. Em mais de cem anos de abolição, ao negro não foi dada a possibilidade de mudança social.

Atualmente o Estado tem se comportado como um Estado racista e escravista, aplicando generalizadamente uma política de genocídio, aparelhando polícias e gastando fortunas em armas e segurança, e que são aplicadas para a pretensa paz dos segmentos médios e superiores da sociedade. Um Estado que atrasa ou não paga os salários devidos a professores, aposentados e servidores, gasta boa parte do orçamento público no aparelhamento policial. Se este dinheiro (fora o que está nos bolsos do empreiteiro) fosse utilizado na educação, saúde e redenção da vida social das comunidades, haveria não só maior segurança como se estaria mais preparado para a nova era.

A questão está em aberto. No passado, houve uma resistência escrava, formando quilombos; hoje, estão presentes coletivos negros capazes de mobilizar a sociedade. Lembremos que a cultura de origem africana, sicretizada no Brasil, oferece em múltiplos campos, notáveis contribuições, assim como são inúmeros os nomes negros que brilham em nossa cultura, mostrando que do chão, do trabalho, da verdadeira vida ativa, provêm as bases da renovação.

E não se trata apenas de acabar com a escravidão negra. A 2º Abolição contempla o negro, mas também, o branco trabalhador. Aliás, para que haja libertação do negro, é preciso que toda a sociedade realize a 2º Abolição. É muito esperançoso que setores que viveram dominados e reprimidos socialmente, hoje emergem, como as mulheres, negros, homossexuais. É como se uma sociedade passasse a ter um potencial produtivo muito maior do que teve historicamente. A emergência da mulher, do negro, e de grupos marginalizados é a esperança de um Brasil Novo. Um Brasil que não seja simplesmente o pasto das grandes empresas mundiais,.

Isto tudo ocorre com a desejável aproximação efetiva com a África. Tanto seria resgatado o passado, como se passaria a exercer uma política atual de intercâmbio econômico, social e cultural,como aliás, foi um dos pontos da política externa liderada pelo ministro Celso Luiz Amorim.

Viva a 2ª Abolição!

Por: Jorge Miguel Mayer

O autor é doutor e professor de História da Universidade Federal Fluminense

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