21/11/2017

Consciência Negra

Jorge Miguel Mayer Jorge Miguel Mayer
"Hoje, apesar das cotas e democratização da educação esta marginalização prossegue manifesta no grande número de favelas, no genocídio em curso, inclusive com a volta do trabalho escravo e desprezo pelos direitos dos quilombolas."

“Tudo o que significa luta do homem com a natureza, conquista do solo para a habitação e cultura; estradas edifícios, canaviais e cafezais, a casa do senhor e a senzala dos escravos, igrejas e escolas, alfândegas e correios, telégrafos e caminhos de ferro, academias e hospitais, tudo, absolutamente tudo, que existe no país, como resultado do trabalho manual, como emprego do capital, como acumulação de riqueza não passa de uma doação gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar”( Joaquim Nabuco – 0 Abolicionismo, 1883)

Um dos aspectos relevantes da pesquisa histórica em Nova Friburgo tem sido a revisão do papel da escravidão no município, rompendo a visão tradicional que considerava Nova Friburgo uma “Suíça Brasileira”, marcada pela origem imigrante e pelo trabalho livre. Além de se constatar a miséria inicial da colônia de suíços e a herança de pobreza que ela deixou, revelou-se que a escravidão foi fundamental direta e indiretamente na formação do município.

Desde as origens havia na região fazendas que empregavam escravos como a própria Fazenda do Morro Queimado onde se instalou a colônia de suíços. Um censo feito pelo padre Joye revelou, em 1828, que na Paróquia de São Batista de Nova Friburgo (envolvia áreas que hoje pertencem a municípios limítrofes) havia 824 colonos imigrantes, (colonos suíços e católicos) 791 brasileiros e 1272 escravos.

Em plena época do apogeu do café no interior fluminense, o município em 1872 tinha 6 684 escravos num total de 20 656 habitantes distribuídos pelas então chamadas freguesias: São José do Ribeirão – 3072; Nossa Senhora do Paquequer, 2 167 e Sebastiana 548. (Distritos hoje pertencentes respectivamente a Bom Jardim, Sumidouro e Teresópolis). A freguesia de São João Batista de Nova Friburgo, onde ficava a Vila, possuía 897 escravos e 5 406 homens livres.

Em Lumiar e São Pedro, cuja produção se pautou pelo trabalho de famílias livres, também houve presença escrava. Quando os colonos suíços e alemães chegaram na região já se depararam com grandes fazendas muito provavelmente possuidoras de escravos. Alguns colonos imigrantes e seus descendentes chegaram a ter fazendas de café no Vale do Macaé como os Marchon (Pedra Riscada) e Jaccoud (Cascata), trabalhadas por escravos. conforme revelam os inventários onde eles aparecem arrolados e avaliados como coisas.

Se foi registrada a escravidão na região, por outro lado não podemos deixar de resgatar o sonho de liberdade que estas terras abrigaram. Contando com a proteção das matas o sonho se materializou na existência de quilombolas, (escravos fugidos), comprovadamente vivendo na área antes mesmo da chegada dos colonos suíços. Reconhecendo o terreno do Vale do Macaé, um grupo de suíços se deparou com os quilombolas. Com o apoio oficial tomaram as terras e plantações deste grupo de origem africana.

Uma carta, datada de 1823 e assinada pelo colono Antoine Cretton, narra que uma caravana organizada para a exploração das terras do Macaé se deparou com quilombolas: “Cavam em todos os caminhos que chegam até lá valas do tamanho de um homem, cheias de estacas pontiagudas; cobrem a abertura com folhas, de modo a disfarçar a armadilha. Meu genro Laurent Sottemberger, que também fazia parte da caravana, caiu num buraco desses, felizmente só com uma perna; safou-se, mas com o pé atravessado de lado a lado por uma estaca. Mas qual não foi a surpresa, ao nos depararmos, de repente, com oito negros que, de arcos retesados, ameaçavam transpassar-nos o peito. Entretanto conseguimos dominá-los e obtivemos todas as indicações sobre aquelas terras”.

Se de um lado a presença escrava na região ajuda a compreender tradições de autoritarismo e desprezo pelo trabalhador, por outro nos leva a buscar a força da liberdade, da auto-sustentação dos quilombos e pensar em todas as maravilhosas contribuições africanas para a cultura brasileira. Dentre as várias plantas introduzidas pelos escravos lembremos, por exemplo, o inhame tão difundido na região e tão bom para a saúde.

Podemos dizer que após a abolição, a realidade das condições de vida da escravidão se manteve e sendo o trabalho exercido em boa parte por imigrantes, os ex- escravos ficaram nas condições precárias de trabalho e moradia. Hoje, apesar das cotas e democratização da educação esta marginalização prossegue manifesta no grande número de favelas, no genocídio em curso, inclusive com a volta do trabalho escravo e desprezo pelos direitos dos quilombolas.

Neste ano de 2017, nos dias 18, 19,20 (feriado estadual) haverá uma intensa programação da Semana da Consciência Negra. Estão programadas palestras sobre escravidão e resistência escrava na região, depoimentos, leituras dramáticas de textos de Machado de Assis e da peça Carokango de Jorge Miguel Mayer, rodas de leitura sobre escravidão, filmes, músicas sobre o tema, e homenagem a afro-descendentes no Espaço Papiparotes (Cassino Serrano- São Pedro)

Por: Jorge Miguel Mayer

O autor é doutor e professor de História da Universidade Federal Fluminense

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