21/11/2017

Limites e transformações da democracia

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Não existe democracia sem democratas. O eleitor ocidental parece ter perdido a imaginação e a coragem. A democracia não consegue se reinventar e se adaptar aos novos tempos."

Duas notícias, uma local e outra global, nos informam sobre o declínio da expectativa em relação à democracia representativa.

Recente pesquisa do Datafolha revela que vem caindo entre os brasileiros o apoio à democracia e vem aumentando a porcentagem dos que admitem uma saída não institucional para a crise política.

No plano mundial, assistimos à paulatina conquista em direção à supremacia de potências que colocam nítidos limites às liberdades individuais frente aos interesses coletivos como a Rússia e a China.

Esses fatos nos colocam diante das seguintes perguntas: a democracia representativa tem um fim em si mesmo? O quanto de liberdade estamos dispostos a perder em troca de mais segurança? É justo sacrificar o futuro do País nas mãos de uma elite política corrupta e incompetente?

Procurar respostas para essas perguntas é uma atitude indispensável para que possamos entender o ponto de vista dos que defendem, por exemplo, saídas não institucionais como um golpe militar ou um estado guiado por preceitos religiosos.

Ao invés de campanhas de ódio e de incompreensão mútua, precisamos encontrar o denominador comum de toda essa crise política que vivemos no Brasil e no mundo. Isso passa pela reflexão sobre as possibilidades e os limites da democracia representativa nos dias de hoje.

Precisamos refletir. A democracia que praticamos hoje no Ocidente foi feita pelo homem do século XVIII das revoluções burguesas (inglesa, americana e francesa). Naquele tempo as novidades eram os livros e os jornais. As ideias se difundiam através da leitura e do debate face a face. As pessoas estavam mais dispostas a correr riscos defendendo ideias e valores em guerras, revoltas, revoluções e viagens de descobrimento e colonização.

As revoluções científica e industrial aceleraram de forma exponencial a velocidade das comunicações e o mundo se interligou e se homogeneizou culturalmente. O cabo telegráfico interligou Europa e América já na segunda metade do século XIX. Vieram o rádio, o cinema, a televisão e a Internet. Tudo muito rápido. Num curtíssimo período de tempo a humanidade teve de aprender a processar um sem número de informações. A difusão da democracia fez com que as grandes massas fossem integradas a um sistema de debates e decisões num ambiente de baixíssimo nível de escolaridade. O resultado atual é uma ampla massa de eleitores desinformados tomando decisões e delegando sua representação política a políticos descompromissados com qualquer coisa que não diga respeito às suas vantagens pessoais. E a Internet, que no princípio parecia ser uma arma da democracia contra regimes autoritários, passou a ser percebida como um elemento desestabilizador devido à quantidade de confusão e cizânia que ela é capa de criar, beneficiando radicais e populistas.

Não existe democracia sem democratas. O eleitor ocidental parece ter perdido a imaginação e a coragem. A democracia não consegue se reinventar e se adaptar aos novos tempos.

Por isso, acho que devemos olhar para a organização política da Rússia e da China. Esses países resolveram copiar o modelo ocidental de sistema industrial baseada na ciência. Mas, em relação à democracia, elas procuram se livrar do que sabem que não funciona.

O presidente Russo Vladmir Putin está no poder desde 2002, alternando entre os cargos de presidente e primeiro ministro. São quinze anos de continuidade política e administrativa. A falta de continuidade é o pé de barro do gigante chamado Ocidente.

A China tem um sistema político que eu acho interessante. Lá, um partido único recruta os melhores alunos das melhores universidades para ingressarem em seus quadros. Esses quadros vão sendo formados e vão ascendendo de acordo com sua capacidade de resolução de problemas.

O Congresso do Partido Comunista Chinês reúne-se a cada cinco anos para escolher os membros da direção do governo. Tudo é feito com muita estabilidade e previsibilidade, podendo-se, por isso, executar políticas de longo prazo, como, por exemplo, a melhoria do sistema educacional.

O desafio político que se impõe no momento é saber se é possível ter o melhor de dois mundos: a liberdade da sociedade ocidental baseada no individualismo e, ao mesmo tempo, a segurança dos estados que delegam mais poder a uma burocracia que impõe sua autoridade, mas que é reconhecida como protetora e provedora de segurança.

A pergunta faz parte de nossa bandeira: a ordem (segurança) pode coexistir com o progresso (liberdade)?

A resposta parece ser não. Pelo menos enquanto não retornar o terceiro elemento do lema do positivismo francês, excluído da bandeira. A citação completa é: “o amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim”. Como pergunta a música: “were is the love?”

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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