18/11/2017

Lembre-se: Você vai morrer

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Estar atento ao que se passa na mente e desenvolver a habilidade para direcioná-la para uma visão mais lúcida, benéfica e libertadora é o melhor empreendimento que podemos fazer em nossa vida (...)"

Nos preocupamos muito com esta vida. Com o que podemos experienciar, conquistar e manter. Fazemos isso materialmente e emocionalmente. Estas preocupações mobilizam tanto nossa mente que acabamos não sendo muitas vezes capazes de olhar para coisas verdadeiramente importantes para nós neste curto período de vida que temos. Podemos não perceber que estamos desperdiçando esta vida com coisas sem sentido e mesmo contrárias ao que tanto buscamos; paz, bem-estar e liberdade.

Muitas vezes somente quando estamos diante da morte é que percebemos que fomos nos aprisionando com desejos, planos e perspectivas limitantes e empobrecedoras do nosso ser. De repente esta vida dá os sinais do seu fim e vemos que tudo que conquistamos não nos preparou para deixar tudo para trás e encarar uma experiência que não temos a menor idéia de como será, ou não será.

Como nos alerta Tulku Urgyen Rinpoche:

“Apesar de sentirmos amor e afeição pela nossa família e amigos, no momento da morte embarcamos sozinhos para um lugar desconhecido. Temos repetido a mesma experiência em todas nossas vidas passadas, deixando para trás todos conhecidos e abandonando nossas posses.

Não importa quanta felicidade e abundância tenhamos reunido neste tempo de vida, isso é tão insubstancial quanto o que sonhamos na noite passada. Entender que nada dura, que tudo passa como um sonho é entender a impermanência e a morte.

Se simplesmente fosse o caso de que nossa vida acaba no nada, como água que secou ou uma chama se extinguindo, seria perfeito. Não haveria nada para se preocupar. Mas sinto muito em dizer que não é assim; porque nossa consciência não é algo que pode morrer.”

Tulku Urgyen Rinpoche - Repetindo as palavras de Buda – Editora Makara

Todas as tradições espirituais afirmam que há algum tipo de continuidade da consciência após a morte e que esta continuidade está ligada ao que cultivamos em nossa mente e manifestamos em nossas palavras e ações durante a vida. Portanto, podemos ver como é importante, tanto para a vida como para a morte, o cuidado com nossa mente, nossas palavras e ações, pois são elas que alimentam o campo da nossa consciência. Desta forma, podemos concluir que mais do que se preocupar com obter coisas e experiências, deveríamos nos preocupar em como nossa mente lida com as coisas e as experiências.

Em seu livro “Vida e Morte no Budismo Tibetano”, Chagdud Tulku Rinpoche nos questiona o seguinte:

“Se eu morrer esta noite dormindo, o que fiz do meu dia? Que fiz com a minha vida? Fui de algum benefício ou causei algum dano?

Algumas vezes não é tão agradável ver o quão autocentrado e egoísta você tem sido, o quão focado no “eu, meu”. Qualquer que tenha sido este o caso, você criou um carma que, em última análise, impele a mente numa direção difícil no momento da morte. É como a movimentação para frente. Se você põe algo em movimento, ele continua a ir naquela direção. Se a sua mente tem se movido através de um curso negativo, quando você morrer ela continuará exatamente no caminho pelo qual ela tem se movido o tempo todo.”

Estar atento ao que se passa na mente e desenvolver a habilidade para direcioná-la para uma visão mais lúcida, benéfica e libertadora é o melhor empreendimento que podemos fazer em nossa vida, pois é esta capacidade que nos ajudará no momento de soltar tudo e mergulhar na desconhecida esperiência da morte. E uma das formas de começarmos a trabalhar com nossa mente neste sentido é viver com a consciência da morte. Isto pode não parecer tão agradável, mas é bastante prático e útil para sairmos de confusões e desgastes desnecessários e problemáticos.

Certa vez, ao passar por um momento difícil na vida e estar envolvido em muitos pensamentos negativos, trouxe pra minha mente a seguinte pergunta: E seu eu morrer agora? Para onde esta mente perturbada irá me levar?

Naquele momento vi a futilidade de tudo aquilo que estava passando. Foi como se eu acordasse de um sonho e um grande espaço se abrisse na minha mente onde tudo aquilo que antes me sufocava perdeu seu poder e se tornou algo bem pequeno no grande espaço da minha mente. Os problemas e as questões continuavam, mas sem a importância e peso que tinham. Como B. Alan Wallace explica:

“O que é “consciência intensa da morte”, e qual seu valor? Essa virtude é colocada em prática convivendo com a morte por trás de sua mente, e às vezes na frente da sua mente, e passando a ficar bem confortável com isso.

Esse reconhecimento dá um foco nítido às coisas, nos dá “a convicção de que todos os fenômenos compostos são impermanentes, para que você tenha pouca atração por atividades mundanas”.

Sob a luz da sua morte, os desejos mundanos são vistos pelo que são.

Por exemplo, tenho desejo de comer meu pão favorito, então compro algum e como. Em circunstâncias normais e convencionais, isso seria significativo. Diante da morte, é completamente irrelevante. Quantos pães do tipo sourdough eu comi nesta vida não vai ser algo com que vou me preocupar quanto estiver morrendo. Nessa perspectiva, todas as preocupações mundanas são igualmente sem valor.

Se nossos desejos por bens, luxo, boa comida, elogios, reputação, afeto e aceitação por outras pessoas e tudo mais não valem nada diante da morte, então esse é exatamente seu valor absoluto. Além disso, qualquer coisa inadequada que tenhamos feito ao perseguir preocupações mundanas terá um impacto negativo. Mantenha essa perspectiva.”

B. Alan Wallace : Aquietando a Mente: Ensinamentos Sobre Shamatha, Segundo a Essência Vajra de Dudjom Lingpa - Editora: Lucida Letra

Mais cedo ou mais tarde todos nós vamos morrer e trazer esta perspectiva para nossa vida nos ajuda não só a trazer consciência para o que vale a pena cultivar em nossa mente e coração, mas nos familiariza com este momento fundamental que segundo a visão budista é uma grande oportunidade para alcançarmos a libertação total do sofrimento se nos prepararmos para isso.

Há alguns anos atrás ao ir para um retiro num centro budista, ouvi uma conversa que uma senhora que morava lá estava tendo com outra pessoa. A pessoa perguntou por que ela veio morar no centro budista. A senhora respondeu: eu vim para cá para o Rinpoche me ensinar aquilo que é mais importante na vida, aprender a morrer.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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