18/11/2017

Anankê e Karma: A face inevitável da Vida

Dib Curi Dib Curi
"Cada pessoa e toda a humanidade terá que experimentar, em algum momento, as consequências negativas de suas ações, de tudo aquilo que fez e que trouxe sofrimento e prejuízo a qualquer ser vivo ou sensível à dor."

O ser humano sente grande dificuldade na relação com a própria Vida e as forças existentes. Nossa luta por controlar tudo à partir dos nossos ideais, desejos e medos encontra uma sólida rigidez do mundo em atender nossas esperanças e expectativas, principalmente, de justiça social, de honestidade nas relações, de Amor universal ou de sucesso e felicidade pessoal. Há coisas que conseguimos mudar, outras não. Em relação àquilo que parece impossível mudar, muitas pessoas acabam frustradas e ressentidas, tornando-se negativas e fonte de mais conflitos e ideologias reativas.

O sofrimento pelo fato das coisas não serem como pensamos ou queremos não é novo. A luta social e no interior de cada pessoa com suas circunstâncias é ancestral. Desde tempos imemoriais é tema recorrente em nossas religiões e filosofias.

Na mitologia grega, por exemplo, existiam duas divindades relacionadas ao destino considerado inexorável: Anankê e Moros. Anankê era a deusa da Necessidade, força motriz que faz o mundo trilhar um caminho inevitável, além do que pensam e desejam os mortais. Sob a égide de Anankê, o mundo segue a trilha daquilo que urge como visceral e necessário. Além da aparência e da nossa ilusão de controle e revolução, estão as leis da natureza e da compulsão. Anankê é simbolizada como uma serpente enrolada em um ovo, defendendo aquilo que tem que vir a ser.

Seu marido e alma gêmea é Moros, o deus do destino e da morte. Moros é filho da noite (Nix) e seu caráter é também o da inevitabilidade. Ele pode ser chamado também de Aeon, a eternidade que atua incompreensível no tempo cronológico, gerando o tempo das oportunidades e das eclosões, tempo chamado de Kairos.

Na Filosofia, muito mais tarde, tivemos pensadores como Thomas Hobbes (1588 - 1679) e Baruch Espinosa (1632 - 1677), que reconheceram na Vida uma força subterrânea pulsante, um natural ímpeto vulcânico que chamaram de Conatus, a inclinação inata dos vivos para continuarem a existir e se defenderem; o instintivo “desejo de viver” dos organismos.

Personagens mais tardios, como Arthur Schopenhauer (1788 - 1860), traduziram o Conatus como uma vontade cega e insaciável das “coisas” em serem o que são e prosperarem em si mesmas. A existência desta vontade cega e incontrolável, deste instinto de viver e de sobreviver, de se expandir e dominar, fez Schopenhauer ser um pessimista nos poderes da Razão em disciplinar estas forças tectônicas poderosas e irracionais. Foi então que Schopenhauer se aproximou do Budismo, por consider possível a negação desta Vontade interminável que, segundo ele, gerava muito sofrimento pelas contínuas frustrações, atritos e conflitos interiores e exteriores que enseja.

Seu principal discípulo foi um dos pensadores mais intensos da História da Filosofia: Friedrich Nietzsche (1844 - 1900) considerava a Vontade Universal como a única coisa existente de fato, sendo tudo mais uma ilusão, principalmente, a Razão e o mundo das ideias. Questionou o seu mestre por tentar superar a vontade de viver e de “poder”. Foi crítico feroz das religiões e filosofias que criaram uma Verdade num plano superior ao da Vida, esvaziando a Vida de seu significado (Niilismo), adoentando assim as forças do viver. Considerava o viver algo trágico e enxergava beleza no sofrimento (sofreu muito), admirando os super homens que, aceitando a Vida como ela é, afirmavam sua própria força e valores ao invés de considerarem-se vítimas e, ressentidos, acusarem os fortes de impiedade.

Outro grande pensador que afirmou as forças da Vida ao invés dos ideais humanos foi Sigmund Freud que, de certa forma, também zombou das forças racionais e conscientes do humano em tentarem controlar ou disciplinar as forças inconscientes e vitais que irrompem em forma de energia e de libido irracional. “Acusava” a civilização de prosperar justamente com a repressão dos instintos primordiais do humano, infelicitando-o.

Doutrinas religiosas ancestrais também tentaram esclarecer a Vida individual e coletiva, mas dando-lhe um sentido espiritual. Na Índia afirmou-se a existência do Karma, um repositório ancestral das ações humanas do passado que, inevitavelmente, acabariam gerando uma reação. Assim, cada pessoa e a humanidade experimentaria as consequências negativas de suas ações que trouxeram sofrimento a qualquer ser sensível e vivo. Não há como escapar do Karma, que regula e determina todos os acontecimentos do mundo, mas há a possibilidade de um Karma positivo, principalmente, se mudarmos nossa disposição egoísta e amenizarmos o sofrimento do próximo. Mas o resultado desta contabilidade e o tempo da colheita o “Universo” define.

Diante do exposto, devemos reconhecer na própria Vida um imenso poder de criação, manutenção e destruição, que os hindús consideravam como sendo os deuses Brahma, Vishnu e Shiva. Para os gregos, os deuses do Cosmos teriam suas próprias vontades, independente dos homens. Mas o fato é que as ações dos humanos inscrevem-se também nas leis de ação e reação do mundo natural. Assim, não seremos livres sem antes resolvermos as consequências dos nossos próprios atos. Talvez, esta seja a maior necessidade de todas e as forças cegas do mundo não sejam tão cegas assim.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

VOLTAR À PÁGINA INICIAL