24/10/2017

Compreendendo a vacuidade

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Ao compreender a vacuidade você perde interesse por toda a parafernália e todas as crenças que a sociedade constrói e derruba (...)"

Um conceito muitas vezes mal compreendido no Budismo é o de vacuidade ou vazio. Muitos acabam entendendo a vacuidade de forma niilista como um a negação da existência, o que no Budismo é uma visão tão equivocada quanto a visão eternalista que afirma que as coisas tem uma existência permanente e possuem uma essência imutável.

Por ser uma visão tão mal compreendida e difícil de explicar (confesso que até para mim), selecionei alguns textos de grandes mestres budistas sobre o que é a vacuidade e a importância desta compreensão para nossas vidas.

“Há uma interdependência no surgimento de todos os fenômenos. A razão pela qual isto é assim, como um famoso texto afirma, é que a natureza essencial de todos os fenômenos é a vacuidade. Isto permite que quaisquer e todas as conexões aconteçam. Se as coisas não fossem vazias, elas seriam sempre as mesmas e, portanto, não poderiam interagir.”

Chagdud Tulku Rinpoche

“Todos os fenômenos aparecem dentro da vacuidade como resultado da reunião de causas e condições ilusórias. A infinita exibição dos fenômenos pode surgir somente porque tudo é vazio em sua natureza.

Como diz Nagarjuna:

Só porque as coisas são vazias

É que elas realmente são possíveis.

A presença do espaço torna possível todo o universo se configurar dentro dele, e mesmo assim isso não altera ou condiciona o espaço de nenhuma maneira. Embora arco-íris surjam no céu, eles não fazem diferença para o céu; simplesmente, o céu torna possível o surgimento do arco-íris. Fenômenos adornam a vacuidade, mas jamais a corrompem.

Se você tiver uma compreensão completa do modo como fenômenos surgem através da originação dependente, não será difícil compreender a visão da vacuidade enquanto permanecer em meditação. Ao voltar de tal meditação e entrar no caminho da ação, você reconhecerá claramente a relação entre ações e seus resultados. Isso permitirá a você discrimar facilmente entre ações positivas e negativas.” Dilgo Khyentse Rinpoche - “The Heart of Compassion”

“Sidarta [Buda] descobriu que a única maneira de confirmar a existência real de alguma coisa é provar que ela existe independentemente, livre de interpretação, fabricação ou mudança. Para Sidarta, todos os mecanismos aparentemente funcionais para nossa sobrevivência diária — físicos, emocionais e conceituais — caem fora dessa definição. São todos apenas combinações de partes instáveis e impermanentes, portanto estão sempre mudando. […] Por exemplo, você poderia dizer que seu reflexo no espelho não tem existência própria porque ele depende de você estar em pé na frente dele. Se fosse independente, então mesmo sem o rosto, deveria haver um reflexo. De modo similar, nada pode realmente existir sem depender de incontáveis condições.

[…] como não temos a inteligência de ver as partes das coisas, nos conformamos em vê-las em conjuntos. Se todas as penas são tiradas de um pavão, deixamos de ficar maravilhados. Mas não estamos querendo muito nos render a ver o mundo dessa maneira.” Dzongsar Khyentse Rinpoche - ”O que faz você ser budista?”

“Talvez você ainda esteja se perguntando, Qual é o beneficio de compreender a vacuidade? Ao compreender a vacuidade, você continua a apreciar tudo o que aparentemente existe, mas sem se agarrar às ilusões como se fossem reais, e sem a incessante decepção de uma criança que corre atrás do arco-íris. Sua visão penetra as ilusões e isso faz lembrar que elas são, antes de mais nada, criações do eu. A vida ainda pode mexer com você; você pode se emocionar, ficar triste, irado ou apaixonado, mas tem a confiança de alguém que vai ao cinema e consegue se distanciar do drama, porque tem a clara compreensão de que se trata apenas de um filme. Suas esperanças e medos, pelo menos, se dissipam um pouco, como acontece quando você reconhece que uma cobra que você morre de medo num quarto escuro, era apenas a sombra de uma gravata.Quando não temos a compreensão da vacuidade, quando não entendemos plenamente que todas as coisas são ilusões, o mundo parece real, tangível e sólido. Nossas esperanças e medos também se tornam sólidos e, assim, incontroláveis. Por exemplo, se você tiver uma crença sólida na existência da sua família, terá uma profunda expectativa de que seus pais cuidarão de você, mas não terá o mesmo sentimento em relação a um estranho que vê na rua; ele não tem esse tipo de obrigação. A compreensão dos fenômenos compostos e a compreensão da vacuidade abrem espaço no relacionamento. À medida que você começa a ver as várias experiências, pressões e circunstâncias que moldaram seus pais, suas expectativas em relação a eles se modificam, sua decepção diminui. Quando nos tornamos pais, mesmo um pouco de compreensão da interdependência já serve para abrandar a expectativa em relação aos filhos, o que talvez eles interpretem como amor. Sem essa compreensão, podemos ter a melhor das intenções de amar e cuidar dos filhos, mas nossas expectativas e cobranças podem se tornar insuportáveis.

Igualmente, ao compreender a vacuidade você perde interesse por toda a parafernália e todas as crenças que a sociedade constrói e derruba – regimes políticos, ciência e tecnologia, economia global, sociedade livre, as Nações Unidas. Você passa a ser como um adulto que não se interessa muito por jogos de criança. Por tantos anos, você confiou nessas instituições e acreditou que elas poderiam dar certo onde outros sistemas já fracassaram, mas o mundo ainda não se tornou um lugar mais seguro nem mais agradável.

Isso não quer dizer que deveríamos viver à margem da sociedade. Ter uma compreensão da vacuidade não significa se tornar blasé; ao contrário, desenvolvemos um sentimento de responsabilidade e compaixão.

No plano material, você continua a lutar por seus direitos, conserva seu emprego, atua politicamente dento do sistema; entretanto, quando a situação se modifica, seja a favor ou contra, você está preparado. Você deixa de acreditar cegamente que todos os seus desejos e esperanças precisam se concretizar e não fica preso ao resultado final.

[…] Como crianças no cinema, somos levados pela ilusão. Daí vem toda a nossa vaidade, ambição e insegurança. Nós nos apaixonamos pelas ilusões que criamos e passamos a ter um orgulho excessivo da nossa aparência, dos nossos bens e realizações. É como uma pessoa usar uma máscara e imaginar, com orgulho, que a máscara seja realmente ela.” Dzongsar Khyentse Rinpoche - ”O que faz você ser budista?”

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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