21/10/2017

“Onde não puderes amar, não te demores”

Dib Curi Dib Curi
"As pessoas parecem ter cristalizado. Afinal, jamais tivemos uma rotina tão controlada e determinada. Vivemos num tipo de protocolo mercantil urbanóide sem precedentes."

Sonhei que me encontrava com a Verdade: Não era somente uma lagarta que rastejava, mas uma borboleta que flutuava. Não era apenas a semente sob o peso da terra, mas as folhas de uma árvore frondosa sob os raios de sol. Não era simplesmente um fruto verde preso à árvore, mas sua queda e união com o chão. As coisas se transformam para serem o que tem que ser, mas unicamente quando apaixonadas por tudo que as liberta. Permanecem assim as palavras de Frida Kahlo: “Onde não puderes amar, não te demores”.

A necessidade de comunicação

Só o Amor traria uma verdadeira comunicação entre nós. Mas que coisa difícil nos comunicarmos de verdade. Poluição mental, excesso de ruído informativo, imposição de verdades prontas, preconceitos. Ouvido nenhum e línguas infinitas. Platão falava de uma comunidade de amigos, onde a comunicação seria mais fácil.

Somos como ilhas solitárias num oceano tempestuoso de signos. Se meu mundo simbólico ou escolhas são similares às suas, conseguimos nos comunicar. Mas sem signos em comum, a comunicação fica difícil para nós. Atrapalham as filiações ideológicas e religiosas. Atrapalham os interesses, as dores e os ressentimentos. Existem muitas pessoas “políticas” que, querendo nossa aprovação, reproduzem nossos signos básicos ou comuns, simulando uma aproximação conosco. E existem os amorosos que, simplesmente, respiram o mesmo ar, sentem o mesmo sol na pele e entendem que sapos são diferentes de peixes. Simplifica. Gera respeito, tolerância e o fim do preconceito. Gera o acolhimento da diversidade. Sem Amor é bem difícil se comunicar de verdade.

Primeiro passo: Aprender a paz

Estamos esmagados entre os interesses dominantes da esquerda e da direita, apertados no centro da luta pelo poder, reféns das linguagens interesseiras e controladoras de mentes. Quando vamos para um lado, as forças da natureza nos puxam de volta para o outro lado, assim como o pêndulo ou o movimento da chuva e da evaporação. É preciso acolher as coisas como são, antes mesmo de nascer em nossos corações o desejo do impossível e o medo do inviável. Devemos renunciar ao poder para acolhermos o Poder que faz os astros girarem, os pássaros cantarem de manhã, as plantas procurarem o sol e nós estarmos vivos sem termos decidido sequer sobre que família iríamos ter ou a data e o local do nosso nascimento e também o dia da nossa morte. Chega de buscar um domínio e um controle que jamais teremos. Chega de luta. Aprendamos a paz.

Principal problema:

O eclipse da inteligência.

As pessoas parecem ter cristalizado. Afinal, jamais tivemos uma rotina tão controlada e determinada. Vivemos num tipo de protocolo mercantil urbanóide sem precedentes. Há uma submissão comportamental e de pensamento nunca vista. Usamos nossa energia criativa e de pensamento somente para reproduzir modismos, dualismos, estruturas e ideologias contidas nos nossos quadradinhos sólidos de interesse imediato. Há raras exceções. Nos tornamos animais de rebanho, reprogramados diariamente para concordarmos ou discordarmos do mesmo eixo de forças cristalizadas em poderes alienantes. O engraçado é que nos viciamos em debater sobre política. Mas nos tornamos miseráveis de intuições sobre o fundamental: a liberdade de auto realização e a construção da ética e da fraternidade. Assim, não passam nossas escolhas de opções sobre quem vai nos determinar, quem vai nos dominar e sobre quem vai nos governar. Somos animais de rebanho em busca de pastores. Tempos sombrios. Sofremos um eclipse total da inteligência humana.

Segundo passo: Praticar

uma outra educação.

O ser humano está na Terra há milhões de anos. Há 5 mil anos as pessoas deixam pensamentos e experiências gravadas. Pessoas intensas, sábias e experientes nas dores e felicidades humanas. Pessoas que refletiram sobre o que outras pessoas escreveram, criando uma verdadeira história das ideias superpostas, revisadas e aperfeiçoadas, uma infinita riqueza de sentimentos e visões. É a Filosofia, a Arte e a Ciência.

Todo ser humano que nasce tem o direito de receber esta herança cultural, de perceber o tamanho do mundo e da Vida no olhar que os outros deixaram gravados nos anais do tempo. Um humano que explora seu potencial através dos exemplos dos sábios, dos músicos e dos poetas que se foram, não é manipulado por ideologias nem domesticado por qualquer sistema econômico ou político. Só a educação (não o ensino) pode desenvolver a liberdade. Liberdade é algo que se desenvolve dentro de nós, quando nutrida uma sensibilidade especial, quando desdobrada nossa capacidade de amar, uma espécie de entusiasmo pelos horizontes possíveis de nós mesmos e os outros. Liberdade é vocação, é comunhão, é compaixão. É preciso outra educação.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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