21/10/2017

A História tem um fim?

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"“A cidade justa seria aquela que as três partes da alma estivessem satisfeitas e equilibradas sob a direção da razão.”"

Observando a crise política que se desenrola no Brasil e no mundo nos dias atuais, releio o livro O Fim da História e o Último Homem, do nipoamericano Francis Fukuyama, publicado no final do século XX, em 1992, quatro anos depois da queda do Muro de Berlim.

O autor tenta responder duas perguntas no livro: existe o progresso? Existe uma História Universal coerente e direcional da humanidade?

Fukuyama diz que o século XIX foi uma era de domínio do Ocidente que gerou um tempo de paz sem precedentes e de globalização da economia. Muitos povos tradicionais começaram a se converter ao estilo de vida ocidental.

Se existe algo que podemos dizer que seja acumulativo, progressivo e determinante da evolução histórica no sentido do progresso, esse algo é o método da ciência natural nascido nos séculos XVI e XVII na Europa através de filósofos como Bacon, Descartes e Espinosa. É a ciência natural que explica o sucesso do estilo de vida ocidental e moderno, que acabou por converter praticamente toda a população mundial à vida urbana e à existência de Estados nacionais. E as razões para isso são duas. Primeiro, para sobreviver independente, o Estado nacional precisa desenvolver uma modernização militar defensiva. Segundo, para oferecer um padrão de vida elevado, ele depende da tecnologia industrial.

Entretanto, e aí começam as complicações, existe uma coisa que a ciência natural não explica: a democracia.

Isso ocorre porque o homem é mais do que um ser econômico. O problema estaria no fato de que o desejo e a razão, aliadas na economia liberal, não definem a totalidade do indivíduo. Existe uma terceira parte da personalidade, o thymos, cujos sentimentos correspondentes são o orgulho, a vergonha e a necessidade de reconhecimento.

Ao desenvolver essas idéias, Fukuyama se apoia na tradição filosófica ocidental. Foi o filósofo grego Platão quem primeiro trouxe a idéia de tanto a alma humana quanto a sociedade estarem organizadas em três partes: o desejo, o thymos e a razão. O filósofo alemão Hegel no início do século XIX levantou a importância do reconhecimento e explicou sua relevância para a política através da dialética da oposição senhor – escravo. O homem não deseja apenas objetos para sua segurança e conforto. Ele precisa também do desejo do desejo do outro através do reconhecimento.

É de Hegel que vem a noção que temos de progresso e de modernidade em oposição ao arcaico e primitivo do nosso passado pré-moderno. O filósofo alemão comemorou o fato de a Revolução Francesa ter abolido a distinção entre senhor e escravo ao garantir o reconhecimento de todos os seres humanos como iguais.

Porém, problematiza Fukuyama, a política e a economia liberais dependem de formas irracionais de reconhecimento. Se bem educado, o thymos é responsável pela coragem, o espírito público e a justiça. Se não for integrado às demais partes da alma, ele gera dominação, tirania e imperialismo.

É preciso, portanto, reconhecer que os seres humanos são mais do que seres econômicos. Eles são também seres políticos. É dessa compreensão que depende o futuro da democracia liberal. Esta forma de governo, fruto das chamadas revoluções burguesas (inglesa, francesa e americana) criou a isothymia, o reconhecimento de todos como iguais, em contraposição ao desejo de reconhecimento do senhor que domina o escravo, a megalothymia.

Críticas a essa mudança foram feitas tanto por parte da esquerda quanto da direita. A esquerda denuncia que essa igualdade é falsa porque, na verdade, o capitalismo cria uma enorme desigualdade. A direita não aceita o nivelamento de todos pela igualdade e argumenta que o homem possui uma sociabilidade associal, pois deseja, ao mesmo tempo, se associar a outros homens, mas, também, fruir de sua liberdade na esfera privada.

Por fim, reforçando a crítica de direita, Fukuyama encerra sua argumentação trazendo o conceito de Nietzsche de “o último homem”. A segurança e o conforto criados pelo progresso acabou por gerar um homem acomodado, covarde, incapaz de correr riscos, ao que chamou de o último homem. É quando surgem os primeiros homens bestiais movidos pelo medo de se tornarem desprezíveis últimos homens.

Minha opinião é a de que em momentos assim devemos retornar às origens. Concluo citando Fukuyama: “Platão argumentava que embora thymos fosse a base das virtudes, por si não era bom nem mal, mas precisava ser treinado para servir ao bem comum. Em outras palavras, thymos deveria ser governado pela razão, e transformado num aliado do desejo. A cidade justa seria aquela que as três partes da alma estivessem satisfeitas e equilibradas sob a direção da razão”.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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