17/09/2017

Tradição Golpista em Agosto

Jorge Miguel Mayer Jorge Miguel Mayer
"Isto tudo é expressão da voracidade externa e da progressiva perda de controle estatal. "

“Devem V.Sas. abster-se de lançar novos impostos, pois os tributos geram indisposição no povo. O povo é um rebanho de carneiros que se tosquiam, mas quando a tosquia vai até a carne, produz infalivelmente a dor e, como esses carneiros raciocinam, por isso mesmo se convertem muitas vezes em terríveis alimárias”. (Testamento Político de João Maurício de Nassau, citado em As Invasões Holandesas – História Nova -1964)

Refiro-me à pressão que levou Vargas ao suicídio, em um 24 de agosto; à renúncia de Jânio Quadros e à crise de 1961 e agora este espetáculo de privatizações impostas pelo Presidente da República em exercício, incluindo aeroportos, Eletrobrás, Casa da Moeda e liquidando uma antiga reserva-parque que tem exatamente 47 mil quilômetros quadrados na Amazônia, do tamanho do estado do Espírito Santo, comparável à Dinamarca.

Isto tudo é expressão da voracidade externa e da progressiva perda de controle estatal. São atos perniciosos, expressão máxima de autoritarismo ditatorial, pois atos desta importância deveriam passar pela consulta da sociedade. São conquistas que, de repente, são liquidadas por uma pessoa que nem legitimidade social possui. Isso que está sendo considerado como solução para a crise, na verdade conduz ao seu aprofundamento. Leiloar a Amazônia é acabar com o país. Não há nenhum respeito pelo cidadão, pelo ambiente, pelos indígenas. Já foi anunciado um aumento de 16% nas contas residenciais de luz para tornar a privatização da Eletrobrás mais apetitosa.

Esta liquidação do Estado dificulta a união nacional, desintegra a economia e reduz os instrumentos estatais de assegurar investimento e consumo fundamentais numa conjuntura de crise. Ora, o setor público é o único que pode gerar soluções para as grandes massas tanto no emprego, nos serviços comunitários, como na educação e cultura. Ao invés disso, impõem-se limites e cortes para a pesquisa, com redução de iniciativas culturais e no campo da ciência e da inovação tecnológica. Um país que tem tudo para se tornar próspero, vai sendo reduzido a uma República de Bananas, com seu território e cada vez mais sua capacidade de decisão cedidos ao capital externo. Forma-se um grupo decisório, nascido da aplicação de capital que reduz nossas esperanças à conformação a interesses das grandes corporações empresariais que manipulam a vida política e alimentam preconceitos racistas, homofóbicos e violência contra a pobreza. É nessas condições que surgem figuras autoritárias e fascistas como Bolsonaro.

Aliás, o fascismo cresce no, mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos da América. Lembra os últimos dias do Império Romano, que não obstante a sucessão de imperadores, inclusive de militares, não conseguiu deter a sua decadência. Por não resolver o problema da pobreza e da miséria, criminaliza-se a pobreza tornando-a um fator de medo e violência - um problema de segurança à qual estão ligadas atitudes genocidas e belicistas...

O caso do Estado do Rio de Janeiro é significativo, com seus atrasos e falta de pagamentos, com a crise forçada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e com uma situação crítica de vários municípios. Ora o Estado do Rio de Janeiro tem que ser repensado. Vivemos por aqui um exemplo de centralização histórica na qual, em geral, os serviços de saúde e cultura se concentram em algumas poucas cidades, deixando o interior com graves indicadores de carência social.

Atualmente, a Internet produz capacidade comunicativa, abrindo novo campo integrativo e cognitivo, É uma comunicação interativa que depende de um toque definidor das direções do conhecimento, podendo proporcionar formação e informação bem maior do que fazem os tradicionais meios televisivos e até a imprensa tradicional. E como lembra o saudoso Eduardo Galeano (1940-2015), dos locais pequenos brota a força regeneradora. Tenho para mim que tudo depende da participação democrática. E é nos lugares pequenos que podemos lutar por nossos ideais. A falta de participação é que gera estas soluções macabras do ponto de vista econômico e político.

A autoestima e conscientização provêm da vida cultural e artística. No distrito de São Pedro isso está melhorando pelo encontro entre as tradições locais e movimentos que vêm de fora. Uma questão chave é a consciência ambiental. Há pouco tempo, houve uma mobilização social vitoriosa nos distritos de Lumiar e São Pedro para defender a pureza das águas do rio Macaé, ameaçada pelos propósitos de uma empresa aparentemente produtora de energia. Existe em Lumiar uma feira agroecológica, onde há espaço inclusive para manifestações artísticas e para atividades culturais. Enfim, Lumiar e São Pedro possuem movimentos culturais promissores.

Isto vai influenciando instituições como igrejas, clubes que estão sendo chamados, nesta nova era, para criar novos projetos capazes de beneficiar o povo em conjunto. É o caso da alimentação orgânica nas escolas, capaz de valorizar a boa nutrição e a produção familiar local; da valorização das florestas e da revitalização das curas que se apóiam nos poderes das plantas e da boa água. Velha aspiração que remonta ao século XVIII, quando o Marquês de Lavradio resolveu criar uma academia científica capaz de utilizar os produtos da terra, podendo aliviar as doenças e males do mundo, “para que não continuemos a passar pela vergonha de que os estrangeiros sejam só os que nos instruem e se aproveitem dessas preciosidades que nós temos, mas que nós possamos ser os que os instruamos a eles e tiremos as grandíssimas utilidades que daqui nos podem resultar”

Por: Jorge Miguel Mayer

O autor é doutor e professor de História da Universidade Federal Fluminense

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