17/09/2017

Atropelamentos

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"No vazio deixado pela crise de valores e de representação política no Ocidente, vemos aparecer conflitos que julgávamos superados pelo homem moderno, como o ódio racial e o fanatismo religioso"

Estamos assistindo ao esgotamento da democracia representativa como modelo de representação política. Ela mostra sinais de falência em várias partes do mundo. É como se os elementos tradicionais que guiaram a política nos últimos três séculos já não fizessem mais sentido.

Recentemente, dois atropelamentos dominaram o noticiário. Primeiro, no dia 12 de agosto, na cidade americana de Charlottesville, na Virgínia, um supremacista branco investiu um carro contra a multidão que protestava contra o racismo. Depois, em Barcelona, no dia 17 de agosto, fundamentalistas islâmicos atropelaram centenas de pessoas na área turística das Ramblas, conhecido ponto de encontro multicultural.

Três ideias nos ajudam a pensar sobre esses eventos: 1) o declínio do Ocidente; 2) os perdedores da globalização; e 3) a perda da dimensão de classe social como orientadora do processo político.

O declínio do Ocidente

Oswald Spengler (1880-1936), filósofo alemão, publicou em 1918 o livro O Declínio do Ocidente, que se tornou uma referência para a ideia de que a hegemonia da civilização ocidental não se daria para sempre. Outros historiadores depois dele também compartilharam o mesmo modo de pensar.

Através da História, várias civilizações conseguiram um papel hegemônico, que poderia durar muito ou pouco tempo, mas o colapso e a desintegração é somente uma questão de tempo, pois a vida na riqueza e opulência dos dominadores traz em si os elementos que os levarão à sua decadência.

O motivo encontra-se na demografia, que, afinal, sempre foi o motor da história e determinou os fluxos migratórios e as interações geopolíticas entre povos.

Os perdedores da globalização

Houve duas ondas de globalização seguidas de momentos de protecionismo e isolamento. O século XIX, com o avanço dos meios de transporte e comunicações, viu a economia capitalista ocidental se espalhar pelo planeta. O período que englobou as duas Guerras Mundiais e a Guerra Fria foram de protecionismo e isolamento. Nova onda de globalização teve início no final da década de 80 com a queda da União Soviética. Foram praticamente 20 anos de crescimento do comércio internacional que incorporou ao mercado de consumo capitalista milhões de asiáticos, principalmente da China e da Índia, que antes viviam à sua margem. A globalização também beneficiou uma parcela de americanos e europeus que habitam centros mais dinâmicos, internacionalizados e ligados às empresas de alta tecnologia.

Por outro lado, a globalização também teve seus perdedores, como as classes médias operárias dos EUA e da Europa que viram seus empregos migrarem para países distantes e ainda tiveram que disputar as ocupações restantes com imigrantes de países pobres.

Formou-se, assim, uma ampla coalisão de perdedores da globalização, que inclui também os russos, retardatários na industrialização e humilhados perante o Ocidente desde a queda do Muro de Berlim, os mulçumanos, dominados desde a queda do Império Otomano na primeira Guerra Mundial, bem como os descendentes de índios e negros, excluídos nas periferias das cidades latino-americanas.

Classes sociais

O mal estar que acabo de descrever é o caldo de cultura do crescimento do ressentimento que reúne uma variedade de atores que só se identificam entre si pelo ódio decorrente da falta ou da perda de um lugar na sociedade e na economia devido ao fenômeno da globalização.

E esse mal estar é amplificado pelo fato da política no Ocidente ter aberto mão de pensar os conflitos políticos a partir da dimensão de classe social. Na chamada pós-modernidade, o sujeito político se fragmentou numa miríade de outras categorias comportamentais e o meio ambiente veio ocupar o lugar da utopia. No lugar do trabalhador libertado do jugo do capital apareceram a mulher empoderada, o homoafetivo assumido e o planeta salvo do aquecimento global por uma humanidade sustentável.

É provável que a ênfase exagerada no conceito marxista de luta de classes tenha limitado o debate político, ofuscando outras dimensões da existência humana. Entretanto, devemos reconhecer que ficamos um tanto desorientados politicamente quando assistimos no Brasil à criação de uma grande quantidade de partidos políticos sem definição ideológica nítida.

Assim, no vazio deixado pela crise de valores e de representação política no Ocidente, vemos aparecer conflitos que julgávamos já superados pelo homem moderno, como o ódio racial e o fanatismo religioso, os motivadores dos atropelamentos em Charlottesville e Barcelona.

A tensão se dá entre isolamento, protecionismo e xenofobia de um lado e cooperação, abertura e multiculturalismo de outro. É preciso reconhecer, compreender e reparar os ressentimentos históricos. O Ocidente criou um estilo de vida interessante. Mas ele não é o único e nem tem a solução para todos os problemas da humanidade.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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