09/08/2017

A Viagem

Jorge Miguel Mayer Jorge Miguel Mayer
"Partiram de Fribourg, em 4 de julho de 1819 e aqui chegaram os 7 barcos, um deles com a bagagem pesada, a partir de novembro ,de 1819, portanto uma viagem de quase seis meses."

Em memória de Marco Aurélio Garcia (1941-2017)

“Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar; ir ou ficar; desistir ou lutar; porque descobri no caminho incerto da vida que o importante é o decidir. (Cora Coralina)

Dia 1º de agosto é dia da festa nacional suíça. Em Nova Friburgo a Associação Fribourg-Nova Friburgo promove festejos e em São Pedro da Serra, há cinco anos, realizamos, em inícios de agosto, atividades que lembram a relação primordial com a Suíça, expondo as raízes históricas do município. Justifica-se ainda este resgate histórico, porque São Pedro e Lumiar concentram a maior parte dos descendentes suíços no município.

Neste ano, Celso Bomfim, com apoio do Flor da Noite Cineclube, apresentará filmes sobre a imigração e a presença suíça na região no dia 3 de agosto às 19 horas, e eu, Filippi Fernandes e Ricardo Monteiro faremos a leitura dramática da peça “A Viagem”, nos dias 4 e 5 de agosto às 16 horas (sexta e sábado) no Espaço Papiparotes, no Cassino Serrano, seguida de debates sobre o assunto.

A imigração, pelo modo como ela se realizou, expressou o comportamento das autoridades suíças e luso-brasileiras em relação aos colonos. A imigração implicava um corte com a Suíça (um dos artigos do contrato consistia na obrigatoriedade de naturalização luso-brasileira do colono e família). O Brasil era então Reino Unido a Portugal e Algarves sob o reinado de Dom João VI. Este foi um fator que favoreceu a empreitada.

Quem e por que emigra? Esta foi uma imigração familiar, tendo embarcado cerca de 2000 pessoas, a metade de crianças. Pedro Cúrio em seu livro “As Origens de Nova Friburgo” chama de ralé os suíços que vieram. Estudos mais rigorosos como o de Martin Nicoulin negam esta afirmação, mostrando que a maior parte do contingente era voluntária, e que embora a maioria fosse pobre, havia grande diversidade profissional e presença significativa de setores mais abastados. Alguns estavam em dificuldades como os chamados heimatlosen (sem nenhum direito cívico), e houve mesmo casos de gente forçada a emigrar como alguns presidiários e heimatlosen. De um modo geral, a Suíça, vivia a transição para a sociedade industrial, penalizando os camponeses com taxas, e substituindo o modo de produção artesanal pelo industrial. O terrível inverno de 1817 tornou-se um fator de saída. Todos eram católicos, (alguns se converteram para garantir a ida), uma exigência do Rei – nesta época a Igreja Católica estava fundida ao Estado. A maior parte dos colonos provinha de Fribourg (830).

Partiram de Fribourg, em 4 de julho de 1819 e aqui chegaram os 7 barcos, um deles com a bagagem pesada, a partir de novembro ,de 1819, portanto uma viagem de quase seis meses. Foi uma travessia dramática, tendo havido no total 40% de mortos. No navio Urania, de 437 passageiros, houve 107 mortos a bordo e outros tantos, pouco depois em terra. Uma das condições trágicas ocorreu no acampamento de Dordrecht na Holanda, em que os colonos estiveram uma longa temporada (meses) à espera das embarcações para o Brasil. Neste acampamento, sob condições pantanosas, grassou a doença e colonos perderam suas economias; alguns a saúde e outros tantos encontraram a morte. Acrescente-se a insegurança psíquica quanto ao embarque.

Por fim, a viagem no Urania foi descrita pelo Padre Joye que narrou o estado de enjôo, de doenças que dizimaram tantos e enfraqueceram outros tantos. A peça focaliza as condições internas e externas dos colonos no Urania. A travessia do mar Atlântico foi um corte umbilical com a Suíça, que na época nem unida era. O padre Joye, e mais tarde o Relatório da Sociedade Filantrópica Suíça revelam a elevada incidência do alcoolismo e da desesperança dos colonos em terra firme. Na vida, mesmo hoje, agimos na área do possível histórico e de certo modo premido pelas circunstâncias. Os colonos viveram estas limitações, havendo uma atitude nada valorizadora do pobre. Já existia essa atitude colonial em relação ao negro de origem africana (escavo) e aos indígenas, ambos vistos como pagãos a serem civilizados. Na verdade este desprezo pelos pobres correspondia ao desprezo pelo trabalho. Muitos pobres se viam como objeto e não como sujeito da história, a começar pelo pouco comando de sua própria vida.

Chegando ao Brasil, foram os suíços alocados na Fazenda do Morro Queimado, e receberam lotes, alguns, em áreas completamente improdutivas. Daí, a diáspora suíça. Em 1828, o Padre Joye contabilizava apenas metade dos colonos que se estabeleceu na Colônia de Suíços na Paróquia de São João Batista de Nova Friburgo (824 colonos imigrantes, 791 brasileiros e 1272 escravos). Pouco depois de meados do século XIX, o viajante e diplomata suíço Tschudi. constatava que dificilmente um rico ia para a cadeia, que era feita para os pobres e estranhava a quase nula participação de descendentes suíços na administração local Houve uma diáspora suíça. Alguns colonos foram para Cantagalo, para o vale do Macaé, e para áreas que hoje vêm a ser Bom Jardim, Barra Alegre, Duas Barras, até Campos dos Goitacases.

Atualmente, há descendentes suíços em praticamente todas as atividades, inclusive militares, e disseminados em vários estados. Embora muitos suíços conseguissem se converter em fazendeiros escravocratas, e alguns outros tinham escravos, como o Padre Joye, muitos colonos viveram uma economia de subsistência, com uma agricultura familiar. As instituições escravistas deram o tom em todo o Estado do Rio de Janeiro.

Os colonos pobres e rurais viveram sob o desprezo ou esquecimento oficial. Ainda hoje subsistem pobres, sem acesso à cultura, o que pode ser modificado em parte pelo aceso aos serviços modernos e à boa escola. Esta é a meta dos descendentes atuais, que não obstante a tentação de vender as terras, vivem a esperança de chegar à educação, ao serviço de saúde, ao transporte, à internet, o que permitirá trazer ao povo da região uma vida qualitativamente boa.

Por: Jorge Miguel Mayer

O autor é doutor e professor de História da Universidade Federal Fluminense

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