09/08/2017

Entre o começo e o fim: caminhando no meio

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"A meditação budista foi projetada exatamente para aprendermos a surfar a realidade, para que possamos reconhecer o que está realmente acontecendo e usarmos isso para nos libertar da ignorância (...)"

Somos seres em transição vivendo num mundo em transição. Interna e externamente tudo está em movimento, mudando, se desfazendo e se fazendo constantemente. Não há nada que você possa manter, nem mesmo você, pois mesmo que você não perceba, algo está sempre acontecendo com você e com o mundo. É assim que as coisas são, mas nós não percebemos isso, na verdade nós não gostamos de perceber isso e isso nos faz sofrer.

Não é o movimento das coisas que nos faz sofrer, mas sim a nossa resistência em perceber isso, em lidar com isso. Parece que ao nos entendermos como seres vivos, somos levados por uma tendência de cristalizar as coisas, torná-las sólidas e a crer na sua permanência. Talvez isso se dê por um certo encantamento com a materialidade, a falsa sensação de que a matéria sólida seja algo que não muda e nos tornamos obsessivos pela durabilidade de nossas experiências materiais e emocionais. Tudo que queremos são coisas que durem, desde uma nova televisão ao uma nova paixão. Mas as coisas não são assim.

Podemos ver este encantamento numa criança que acredita na solidez de um castelo de areia e que chora quando ele desmorona. De certa forma, mantemos este encantamento infantil em muitas coisas ao longo de nossa vida até a morte. Não percebemos que não é só o castelo de areia que é feito de areia. Tudo é feito de areia.

Podemos tomar este fato como uma notícia não muito agradável, mas ela não é necessariamente isso se começarmos a largar as crenças e perspectivas que tem nos guiado até agora. E para largarmos estas crenças e perspectivas é preciso que nos seja apresentado algo que nos desperte para novas possibilidades de viver. É como se uma pessoa na praia só soubesse furar as ondas e de repente ela visse alguém surfando uma onda e ela pensasse “Uau! Eu quero fazer isso também!”.

Até o momento nós temos nos esforçado para furar as ondas da vida, procurando alguma estabilidade no constante movimento do mar da realidade. Às vezes as ondas ficam mais calmas e podemos ficar mais tranqüilos, mas de repente o mar começa a ficar mais agitado e as ondas mais altas e passamos por alguns sufocos procurando não tomar um “caldo”. Até que vemos alguém surfar as ondas e então percebemos que há mais coisas entre o céu e a terra do que passar a vida no sufoco furando as ondas.

A meditação budista foi projetada exatamente para aprendermos a surfar a realidade, para que possamos reconhecer o que está realmente acontecendo e usarmos isso para nos libertar da ignorância que nos leva para as experiências de sofrimento. Mas o que seria este estado de “surfista da realidade”?

Talvez as palavras a seguir do mestre budista Dzongsar Khyentse Rinpoche possam dar uma idéia:

“Esqueça de ir além do tempo e espaço, já que mesmo ir além dos elogios e críticas parece fora de alcance. Mas quando começamos a compreender, não apenas intelectualmente, mas emocionalmente, que todas as coisas compostas são impermanentes, então nosso apego diminui. A convicção de que nossas posses e pensamentos são valiosos, importantes e permanentes começa a se soltar.

Se fossemos avisados que temos apenas dois dias de vida, nossas ações mudariam. Não ficaríamos preocupados em deixar os sapatos paralelos, em passar ferro na roupa íntima ou colecionar perfumes caros. Poderíamos ainda fazer compras, mas com uma nova atitude.

Se soubermos, mesmo só um pouco, que alguns de nossos conceitos, sentimentos e objetos familiares existem apenas como um sonho, desenvolvemos um senso de humor muito melhor. Reconhecer o humor em nossa situação evita o sofrimento.

Ainda vivenciamos as emoções, mas elas não podem mais nos pregar peças ou nos iludir. Ainda podemos nos apaixonar, mas sem medo de sermos rejeitados. Iremos usar nosso melhor perfume e creme facial em vez de guardá-los para uma ocasião especial. Assim, todo dia se torna um dia especial.” Dzongsar Khyentse Rinpoche - O que faz você ser budista? – Ed. Pensamento

E então? Você quer aprender a surfar também? Então você precisa aprender a meditar.

Talvez você esteja pensando em começar a praticar a famosa meditação mindfulness para isso. Sim ela vai ajudar, ajudar a ficar na prancha de surf, talvez, a ficar mais tranqüilo, por cima das ondas sem afundar, mas pra surfar você vai precisar de algo mais. E este algo mais está nas meditações de contemplação como meditar sobre a impermanência. Outro mestre budista, Chagdud Tulku Rinpoche, nos ensina a fazer isso da seguinte forma:

“Quando cresce a nossa compreensão da impermanência e qualidade ilusória da existência, começamos a observar os fenômenos sem projetar nossas falsas suposições; com o tempo, passamos a reconhecer a sabedoria intrínseca, aberta e nua, como nossa natureza verdadeira e a natureza verdadeira da realidade.

Para ter acesso à experiência daquilo que é natural, comece reconhecendo a impermanência em cada ação do seu corpo, em cada palavra da sua fala, em cada movimento da sua mente. Ao movimentar a mão, reconheça na mudança de posição uma demonstração de impermanência. Primeiro, ela estava do lado esquerdo, depois do direito. Com sua respiração, reconheça a impermanência, à medida que ela vai e vem, vai e vem. Com a prática, o processo intelectual deliberado de olhar para cada coisa e pensar, “Isto é impermanente”, evolui para um conhecer natural, espontâneo, da constante manifestação das mudanças. Isso ameniza nossa atitude em relação à realidade; começamos a apreciar a verdade das metáforas do Buda que descrevem os fenômenos como ilusões ou imagens de um sonho, como alucinações, ecos ou arco-íris – aparentes, mas não tangíveis nem corpóreos –, como reflexos da lua sobre a água; brilhantes, porém não sólidos.” Chagdud Tulku Rinpoche - Portões da Prática Budista – Editora Makara

São exemplos de mestres como Dzongsar Khyentse Rinpoche e Chagdud Tulku Rinpoche com sua sabedoria e exemplo de vida que nos inspiram a se aventurar em novas perspectivas e experiências que vem com a prática da meditação. E não há nada mais importante na vida do que fazer isso.

Como diz Buda Shakiamuni:

“Melhor é viver um dia

Vendo o surgimento

e fim das coisas

Do que viver cem anos

Sem ver o surgimento

e fim das coisas.”

Dhammapada

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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