09/08/2017

Os abacates vão amadurecer

Dib Curi Dib Curi
"A Vida nos entrincheira nos limites do nosso ego e de nossa individualidade para fazer doer em nós a injustiça, a competição, a indiferença e a solidão. A Vida nos isola para destruir nossos muros ilusórios."

Nossos tempos parecem mesmo muito complicados. Assistimos a uma desconstrução total dos valores em que nos apoiamos nos últimos séculos. Vivemos em uma enorme falta de referências. A maioria de nós perdeu totalmente a noção de valores como certo e errado e bem e mal no sentido social. Alguns ainda tentam se apegar às pilastras que restaram (políticas e religiosas), mas estas parecem ruir também no solo movediço da pós modernidade.

Cada vez mais sentimos nossos sonhos, esperanças e ideais nos abandonarem, deixando-nos à sós com uma realidade nada promissora e ambos - nós e a realidade - estamos nus. Talvez precisássemos mesmo passar por isto. Mas a rudeza e a crueza das coisas tem nos assustado bastante. Ainda não descobrimos a nova positividade das coisas. Não somos mais o que éramos e ainda não somos o que vamos ser. Estamos no vácuo, nauseados a meio caminho de uma possível grande transformação.

Creio que um dos primeiros aprendizados neste momento é compreendermos que a vida é o lar da diversidade. Assim, não importa o nosso grau de conhecimento ou reflexão, devemos aprender a compreender e respeitar a diferença que existe entre nós e os outros. Não importa moral, padrões estéticos, éticos ou engajamento político ou intelectual. Não importa nem mesmo nossa sensibilidade especial ou maneira didática. O mundo é a casa do diferente. Podemos até ser compreendidos pelos outros, mas limoeiros jamais serão abacateiros.

No fundo, o que há é um amadurecimento constante de todas as coisas. O que há é aquilo que une e aquilo que nos separa. O que há é o abacate quando caí do pé, e só neste momento, pronto para servir de alimento. Só o amadurecimento da percepção pessoal poderá nos fazer perceber a diferença e a identidade das coisas. Sou um otimista. A vida nos leva sempre ao melhor. As dificuldades nos estressam fazendo com que procuremos o sol acima da terra que nos pesa nos ombros. A Vida nos entrincheira nos limites do nosso ego e de nossa individualidade justamente para fazer doer a injustiça, a indiferença, a competição e a solidão. A Vida nos isola para destruir nossos muros ilusórios. A Vida é sábia. Mas sem uma consciência mais profunda, formada nos ideais e decepções ou frustrações, construída na experiência e na dor, não há prática que chegue a lugar comum. Cada qual está com sua própria verdade até que as cortinas do seu olhar se abram e mostrem aquilo que sempre esteve ali, mas que o interesse pessoal (ou Ego) não era capaz de ver. No momento há um sistema econômico e político que quer nos fazer iguais. É preciso primeiro descobrir nossa diferença e singularidade. Só depois poderemos compreender a nossa igualdade.

Justamente neste ponto é que precisamos falar em quebra de paradigmas. Suponho que os leitores saibam o que significa “paradigma”. A definição mais simples que há no dicionário é a seguinte: paradigma é um exemplo que serve de modelo; um padrão.

Por exemplo, a humanidade já achou que o Sol girava em volta da Terra; este era um paradigma de compreensão da astronomia, o chamado heliocentrismo. À partir de Copérnico e Galileu, compreendemos que era a Terra que girava ao redor do Sol. Mas antes desta mudança de paradigma fomos capazes de matar milhares de pessoas na fogueira porque disseram o contrário, entre eles, o brilhante cientista e filósofo Giordano Bruno em 1600. Pois o poder se apoia em paradigmas. Se o leitor quiser se aprofundar um pouco sobre o significado de paradigma, leiam algo sobre Thomas Kuhn.

No atual momento da história, com tantas questões sociais, econômicas, políticas e psicológicas se complicando, dizer “quebrar paradigmas” significa fazer referência à muitas coisas que acreditamos serem verdades e nas quais nos apoiamos. É bom nos prepararmos, pois o principal paradigma humano começou a ser quebrado. Talvez seja a maneira do ser humano compreender a Vida. Talvez seja o que Wilhelm Reich nos diz :

“Apenas a liberação da capacidade natural do homem para o amor pode vencer a tendência sádica e destrutiva. As enfermidades psíquicas são resultado de perturbações da capacidade natural de amar”.

Atualmente, compreendemos a Vida através do Poder. Mas Reich e outros nos falam do Amor como centro. Isto é uma quebra de paradigma. Nossa relação com a Vida é dada pela qualidade da consciência que temos, por aquilo que percebemos. Nos sentimos isolados de tudo. Mas, de alguma forma, a nascente que brota na montanha está ligada à nuvem de chuva e ao mar. No caso do ser humano, sua consciência histórica o aprisionou numa sensação de isolamento, de desamparo e de solidão. Ele vive à partir disto. Seu coração é luta, sua vida é luta e sua ideologia é luta. Daí vem a insegurança, o medo, a busca pelo poder, a corrupção e a competitividade. Mas não há como uma gota estar separada do mar. A consciência é oceânica, não é particular. Um mínimo de boa vontade e podemos começar a perceber isto, humanamente e ambientalmente. É preciso perceber o fluxo da espiritualidade em nós para fazermos da Terra um lugar melhor. Só assim, os abacates irão amadurecer.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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