15/05/2017

A Lista de Fachin abriu a Caixa de Pandora da Política Brasileira

Sandra Mara Ortegosa Sandra Mara Ortegosa
"“Dormia a nossa pátria mãe tão distraída. Sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações.” (Chico Buarque de Holanda)"

As revelações escancaradas pelos delatores nas investigações da Operação Lava Jato assumiu dimensões nunca antes imaginadas depois da abertura da bombástica Lista de Fachin. Com raríssimas exceções, como é o caso da Rede, de Marina Silva, e do PSOL, centenas de políticos de quase todos os partidos estão envolvidos no crime de corrupção. E a impressão que se tem é que isso é apenas a ponta de um iceberg e que muita coisa ainda irá emergir desse lodaçal de lama tóxica.

Abriu-se uma verdadeira Caixa de Pandora que detonou o sistema político-partidário brasileiro, jogando uma pá de cal sobre qualquer resquício de confiabilidade, que porventura ainda existisse, em relação à casta de políticos que, via de regra, governa e legisla em causa própria. Hoje, o “Fora Todos” e o “Não Me Representam” são os gritos de indignação e revolta contra os políticos corruptos que mais ecoam nos corações e mentes da maioria dos brasileiros.

De todas as figuras públicas investigadas pela Lava Jato, no entanto, o ex-presidente Lula, deixando-se seduzir pelo canto de sereia do poder, foi o que causou os maiores danos ao futuro da democracia em nosso país. Em troca das benesses e privilégios do alto clero, Lula jogou o ideário da esquerda na lata do lixo e ajudou a fortalecer o que há de pior na direita. Dividiu a sociedade brasileira entre ricos e pobres, com o lema “nós contra eles”, refastelando-se com os ricos e, fazendo uso do álibi da defesa dos pobres, jogando-lhes algumas migalhas do farto banquete com empresários bilionários, como os Eikes Batistas e Odebrechts da vida. Até mesmo a famosa “Carta aos Brasileiros”, segundo o patriarca Emílio Odebrecht, que verdadeiramente mandava no país, foi escrita com a sua colaboração em troca do apoio ao governo Lula.

Mas, apesar de o rei estar inquestionavelmente nu, ainda há muitos petistas e aliados que insistem na narrativa do golpe sob o argumento de que a ex-presidente Dilma Roussef teria que voltar ao poder para que a normalidade democrática se restabelece-se. Esquecem-se de dizer que muito desse retrocesso que estamos presenciando, começou antes que Temer assumisse o poder e que ele não vem fazendo nada mais do que aprofundar as medidas neoliberais de ajuste fiscal iniciadas na gestão Dilma.

Esquecem-se, também, da brutal repressão aos protestos multitudinários de Junho de 2013; das expulsões de comunidades pobres do Rio de Janeiro para dar passagem à especulação imobiliária e às obras superfaturadas dos megaeventos da Copa e das Olimpíadas; da autoritária Lei Antiterrorismo, cuja principal vítima é Rafael Braga (um preto pobre condenado por portar um litro de Pinho Sol que supostamente iria ser usado na fabricação de um coquetel molotov); do genocídio de populações indígenas e ribeirinhas, vistas como obstáculos ao avanço dos interesses mesquinhos do agronegócio, das mineradoras, empreiteiras, pecuaristas e madeireiras; do maior de todos os crimes praticados contra o meio ambiente, com a construção da Belo Monte em pleno coração da Amazônia; etc. Tudo em nome de um modelo de desenvolvimento econômico arcaico, baseado no aumento do PIB e do consumo, com a realização de projetos megalomaníacos e predatórios do meio ambiente, regados por um tsunami de propinas e caixa 2, amplamente usados para manipular os resultados das eleições e manter os privilégios da casta detentora do poder.

Se o impeachment de Dilma foi um golpe, podemos afirmar que foi um golpe dentro do golpe: o primeiro aconteceu em 2014, com o estelionato eleitoral e o abuso de poder econômico, com desvio de astronômicos recursos da Petrobrás para abastecer a campanha bilionária da chapa Dilma-Temer.

A despeito da enorme impopularidade da ex-presidente, claramente demonstrada nas jornadas de junho de 2013, os movimentos sociais (na sua maioria cooptados), ao invés de se mobilizarem pela cassação da chapa e a convocação de novas eleições pelo TSE, optaram pelo “Volta Dilma”, jogando o país nessa perigosa encruzilhada em que nos encontramos agora.

Para o bem ou para o mal, de acordo com a ideologia de quem analisa os fatos, a Lava Jato abriu a Caixa de Pandora e vem fazendo uma verdadeira limpeza na política brasileira há muito tempo desejada por todos aqueles que ainda prezam pela ética. Esperamos que as próximas eleições sejam o prenúncio de uma mudança de rumo nos destinos do país, com a participação exclusiva de candidatos Ficha Limpa e a realização de uma reforma política que impossibilite esse conluio entre políticos e empresários corruptos que levou o país à beira do precipício.

Por: Sandra Mara Ortegosa

Arquiteta e socióloga pela USP. Phd em Antropologia pela PUC-SP

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