14/05/2017

Machado de Assis, Woody Allen e Nova Friburgo

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"“Nova Friburgo é terra abençoada. Foi aí que, depois de longa enfermidade, me refiz das carnes perdidas e do ânimo abatido”. (Machado de Assis)"

No dia quatro de abril o Jornal A Voz da Serra perguntou aos leitores sobre informações a respeito das passagens de Machado de Assis por Nova Friburgo. E trouxe de volta a notícia de que o diretor de cinema Woody Allen havia declarado que Memórias Póstumas de Brás Cubas, a obra prima de nosso maior escritor, está entre os cinco livros mais marcantes de sua vida.

O fato é que Machado esteve em Nova Friburgo pela primeira vez em 1878 para tratar sua saúde. Teria ele concebido aqui esse livro? A Coluna Mássimo deixa a pergunta no ar e ela ficou balançando na minha cabeça.

Comecei a ler Machado por causa de meu interesse pelo Centro Histórico da cidade do Rio. Um estudioso da história da arquitetura diz que para se conhecer um povo, devemos ler seus três livros: os de suas palavras, os de seus feitos e os de suas artes. No Centro do Rio lemos em pedra, em bronze e em ferro os livros dos feitos e das artes gravados nos monumentos e nos ornamentos dos prédios.

Porém, o livro das palavras, encontramos nas obras dos grandes escritores de nossa língua. Por isso fui ler Machado.

Pobre, tímido, epilético, mestiço e morador do Morro do Livramento, localizado na atual Zona portuária do Rio, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839 de um pai negro pintor de paredes e de uma mãe lavadeira branca e portuguesa, sendo, portanto, um mulato. Vendeu pelas ruas doces preparados pela mãe.

Machado agarrou as oportunidades que lhe proporcionariam a educação que sua condição social não poderia financiar. A função de coroinha em uma igreja, o emprego de tipógrafo e, depois, de revisor garantiram-lhe a iniciação nas letras, a absorção de uma vasta cultura cosmopolita e universalista e a convivência com os maiores escritores de seu tempo. Tendo ocupado diversos cargos burocráticos importantes na administração Federal, ele conviveu com a alta sociedade e com as principais lideranças políticas da época como, por exemplo, Joaquim Nabuco.

Esse conjunto de fatores fez de Machado um observador arguto da sociedade brasileira do final do século XIX. A recém-chegada modernidade convivia com um mundo ainda arcaico, a chaga da escravidão estava presente, a passagem da monarquia para a república gerava turbulências e debates acalorados e problemas sanitários criavam polêmicas. Tudo isso Machado viu com os olhos de quem veio do mundo sofrido da raia miúda e chegou à convivência íntima com os figurões das mais altas esferas do poder.

Ele pôde, assim, testemunhar o patético do comportamento social humano entre a ambição e a covardia, a vida pública e a privada, o racionalismo e a superstição, a cordialidade e a perversidade, enfim, a natureza e a cultura.

E não fazia isso num estilo épico ou nacionalista, mas, sim, tragicômico, “usando a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, expondo as contradições e hipocrisias que corroem os alicerces de nossa nação.

Tenho a impressão de que foi isso que chamou a atenção de Woody Allen e o fez se identificar com o texto machadiano, pois o diretor de cinema realiza algo parecido com a sociedade americana e nova-iorquina. Ambos fazem, no fundo, etnografia. O cinema de Woody Allen é uma tragicomédia machadiana e Machado é um personagem woodyalleano: tímido, gago, vacilante e, ao mesmo tempo, ambicioso e independente. A diferença é que, num filme machadiano, o indefectível jazz da trilha musical seria substituído por um chorinho de Chiquinha Gonzaga ou Ernesto Nazaré. Parafraseando, podemos dizer que Woody Allen filma com a câmera da galhofa e o filme da melancolia.

Quanto às estadias de Machado de Assis em Nova Friburgo, e colaborando com a coluna do Mássimo sobre mais detalhes sobre elas, encontrei no volume da coleção A Vida dos Grandes Brasileiros, dedicado ao fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, texto de Pedro Pereira da Silva Costa, alguns detalhes obtidos pelo estudo de sua biografia.

Segundo a pesquisa, Machado esteve em Nova Friburgo em duas ocasiões. A primeira, em 1878, para tratar uma estafa por sobrecarga de trabalho acompanhada de problemas oculares, uma retinite no olho direito que o impedia de ler. Machado tece em sua correspondência elogios à cidade: “Nova Friburgo é terra abençoada. Foi aí que, depois de longa enfermidade, me refiz das carnes perdidas e do ânimo abatido”.

Ele reconhece, também, que durante esse período leu e escreveu através dos olhos e das mãos de sua esposa, a portuguesa Carolina Augusta, que, aliás, sempre revia seus escritos e ajudava-o em seu processo criativo. Machado, segundo a publicação consultada, afirmou que Memórias póstumas de Brás Cubas, que começaria a ser publicado em folhetim de jornal no ano seguinte, teria começado nesse tempo e que ao menos os seis capítulos iniciais foram ditados à sua mulher aqui.

Se a primeira visita estava ligada à regeneração e à criatividade, a segunda foi marcada pelo tratamento da doença, uma infecção intestinal, que levou à morte a mesma pessoa que o ajudou a se recuperar e a continuar criando, sua esposa Carolina, em 20 de outubro de 1904, ano da publicação de Esaú e Jacó, no meio da Revolta da Vacina.

E, finalmente, em 1908, sua epilepsia se se agravara mais e mais, com ausências e crises convulsivas nas quais mordia e feria sua própria língua. Foi-se, assim, o maior escritor da literatura brasileira.

Bem que Woody Allen podia filmar essa história. E em Nova Friburgo.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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