14/05/2017

Descobrindo o segredo do sofrimento

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"“Você encontrou o segredo para a felicidade?”, perguntou um estudante. “Não,” respondeu a mestra zen Karen Maezen Miller, “Mas eu encontrei o segredo do sofrimento.”"

Precisamos olhar a vida. Olhar a vida como ela é e não como gostaríamos que ela fosse. Se olharmos a vida veremos que ela é dura, crua, cruel. Nada é garantido. Tudo pode mudar em instantes. Uma veia entope e você já não é o mesmo. Uma pessoa calcula mal um curva, um passo, uma palavra e tudo muda. Não sabemos o que tem do outro lado, no outro e nem na própria mente; o amor se transforma em ódio, o prazer em dor, a alegria em tristeza, a vida em morte.

Enquanto não olharmos para isso seriamente, não teremos a força e a determinação necessárias para, primeiro ver que tem uma alternativa e depois se empenhar no trabalho para sair deste campo de sofrimento, despertar deste sonho nada agradável.

Buda antes de despertar olhou para a vida. Investigou ela profundamente, em seus níveis mais sutis e viu que ela era como um sonho, uma miragem, uma alucinação. E viu que todos os seres estavam envolvidos nesta alucinação tomando as coisas pelo que elas não eram e por isso gerando sofrimento atrás de sofrimento. Buda viu que “sofremos porque imaginamos aquilo que não tem identidade (por si só) como tendo, aquilo que é impermanente como sendo permanente, e aquilo que de um ponto de vista final é dor como sendo prazer”. (Francesca Fremantle).

Estes são três pontos fundamentais que precisamos examinar para que vejamos a vida como ela é e, assim, possamos nos conduzir de forma que não criemos sofrimento para nos mesmos e para os outros.

Todos nós buscamos a felicidade, queremos encontrar a felicidade e para isso procuramos saber o que é a felicidade, buscamos criar as condições para uma vida feliz, mas nisso há um problema. Não saberemos o que é a felicidade se não soubermos o que é o sofrimento. Antes de querer entender o que é a felicidade precisamos entender o que é o sofrimento, antes de saber o que nos faz feliz precisamos saber o que nos faz sofrer. Ao invés de procurar obter algo que nos faz feliz precisamos nos desfazer do que nos faz infeliz. Talvez, fazendo isso podemos descobrir que a felicidade está mais em se desfazer de coisas do que em acrescentar coisas. E acrescentar coisas não significa só obter algo, significa também ser intolerante com o que é, com o que está presente, tem a ver com nossas exigências para estar bem. Olhar para nossas exigências pode ser um primeiro passo para nos desfazermos de coisas que nos causam sofrimento. Quanto mais diminuirmos nossas exigências, mais teremos capacidade de ter contentamento e conforto na vida. A felicidade está muito mais em ter a capacidade de apreciar as coisas como elas são do que tentar fazer as coisas ficarem do jeito que a gente deseja. Isto porque por mais que você alcance sucesso em fazer as coisas ficarem de um jeito, isso não será garantido, pois elas irão mudar, elas, na verdade, sempre estarão mudando e nós não teremos controle total sobre esta mudança e seus diversos fatores e condições.

Portanto, se quisermos alcançar um maior grau de satisfação e contentamento em nossas vidas, precisaremos olhar como criamos nosso sofrimento e isto tem relação em como nos tornamos exigentes, como vamos criando nossas intolerâncias nas situações e gerando conflitos desnecessários. Precisamos olhar este processo e ver a futilidade de nossas exigências e assim poder relaxar a mente e ver que se pode vivenciar as situações de uma forma mais livre e mais sábia. Como diz Sayadaw U Tejaniya:

“A atitude correta permite a você aceitar, reconhecer e observar o que quer que aconteça — tanto coisas agradáveis quanto desagradáveis — de um modo relaxado e alerta. Você precisa aceitar e observar tanto as experiências boas quanto as ruins. Cada experiência, boa ou ruim, te dá uma oportunidade de aprendizado para notar se a mente aceita as coisas como elas são ou se ela gosta, não gosta, reage ou julga”.

“Você não está tentando fazer as coisas se transformarem naquilo que você gostaria que acontecesse. Você está tentando saber o que está acontecendo do modo como é. Pensar que as coisas deveriam ser desse ou daquele jeito, querer que isso ou aquilo aconteça, é expectativa. Expectativas criam ansiedade e podem levar à aversão. É importante que você se torne consciente de suas atitudes”.

Como disse no começo, temos que olhar a vida como ela é e ver como criamos uma idéia ilusória dela com nossas exigências e expectativas, nossas ideias sobre o que somos e o que merecemos. Achamos que merecemos tantas coisas e que não merecemos tantas outras e tentamos forçar a vida a partir destes achismos o que pode nos levar a uma atitude bastante arrogante nas situações e a um aumento de nosso sofrimento. Nas palavras do Dalai Lama:

“Nossa atitude em relação ao sofrimento é muito importante porque pode afetar como lidamos com ele quando surge. Nossa atitude usual consiste em uma aversão intensa e intolerância em relação à nossa própria dor e sofrimento. Contudo, se pudermos transformar nossa atitude, e adotar uma que nos permita maior tolerância, isso pode nos ajudar bastante a contrabalancear sentimentos de infelicidade, insatisfação e descontentamento mentais”.

Para flexibilizar nossas intolerâncias criadas pelas nossas exigências, podemos começar a tentar transformar nossas exigências em preferências. Nós não precisamos eliminar nossos desejos de ter uma vida assim ou assado, mas não precisamos nos tornar exigentes com relação a isso. Podemos ter nossas preferências e procurar satisfazê-las, mas precisamos estar atentos em não transformá-las em exigências. E precisamos descobrir nossas exigências e transformá-las em preferências ao ver que podemos viver muito bem com aquilo que antes era inaceitável e assim ampliar nossa capacidade de contentamento e felicidade na vida.

Isso exige uma certa coragem de desafiar nossos hábitos, nossas certezas e crenças, assim como uma certa capacidade de atenção para não cairmos no impulso reativo de nossa mente condicionada. E fortalecer esta coragem e atenção implica em entender profundamente estas palavras de Khenpo Kunzang Pelden:

“Todas as tristezas e medos desta vida e das futuras, assim como todos os méritos e virtudes, surgem da mente. Devemos, então, ao aplicar o estado desperto (em outras palavras, não esquecer os princípios sobre o que adotar e o que rejeitar), tomar posse de nossas mentes, protegendo-as bem com introspecção vigilante, repetidamente examinando nosso comportamento físico e mental”.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

VOLTAR À PÁGINA INICIAL