26/03/2017

Tio Sam em São Pedro

Jorge Miguel Mayer Jorge Miguel Mayer
"A presença de Tio Sam em São Pedro neste carnaval revelou seu interesse pelas águas, pela Mata Atlântica, pela biodiversidade brasileira. "

“O Tio Sam está querendo conhecer nossa batucada. Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato. Vai entrar no cuscuz , acarajé, abará. Na Casa Branca já dançou a batucada com ioiô e iaiá. Brasil! Brasil!Esquentai vossos pandeiros. Iluminai os terreiros, que nós queremos sambar.” (Assis Valente (1911-1958) – Brasil Pandeiro)

Tio Sam em São Pedro é sinal dos tempos! São Pedro que até pouco tempo era uma roça imersa na Mata Atlântica emergiu progressivamente para a modernidade. A partir de meados da década de 80 eletrificou-se; na década de noventa integrou a telefonia; pouco depois fazia parte da Internet e agora todos vivem grudados em seus celulares, fixos nas redes sociais. Praticamente podemos dizer que o caipira desapareceu ou se escondeu. Se por um lado a Internet oferece uma informação atualizada do mundo e mesmo aponta linhas da pesquisa científica, é questionável e duro o caminho da integração, da solidariedade e da cultura. Numa época em que há tantas facilidades de comunicação, as pessoas vivem enorme dificuldade de integração e é muito limitada a solidariedade. É comum ver uma reunião social em que todos estão atentos a seu celular, bem como alheios ao que se passa no ambiente externo. Não conhecem o céu, a terra. E desconhecem o próprio interior e o corpo humano.

No século XIX o tio Sam sucedeu progressivamente à Inglaterra na exploração de matérias primas tropicais. Condicionava a exportação de matérias primas à troca por manufaturados. E isto em nome do liberalismo; isto é, exigia a livre entrada de produtos americanos no Brasil sem que houvesse contrapartida para aos bens nacionais. A partir de 30, empresas norte-americanas estavam presentes nos processos de industrialização nacional.

Tio Sam, para conquistar a simpatia brasileira na década de quarenta - um tempo de guerra - valorizou a música popular, o samba, Carmem Miranda. Difundiu seu cinema, seus heróis como Tarzan, aqueles de Walt Disney: Pato Donald, Tio Patinhas, Pluto, o esperto Mickey e até criou um personagem do Rio de Janeiro – o papagaio Zé Carioca.

Após a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos ampliaram sua influência no mundo, particularmente na América Latina. Foi com muita luta que se conquistou o controle nacional do petróleo pela criação da Petrobrás, em 1953, após a campanha “O Petróleo é Nosso”.

O setor público passou a ser fundamental na economia, tanto na criação da infra estrutura como no apoio à educação, à cultura, à saúde em função da crise geral do capitalismo e das grandes concentrações humanas chamadas cidades. Criou-se no mundo o chamado Estado do Bem-estar. Foi o nacionalismo e trabalhismo que conferiram prestígio a Getúlio Vargas.

A presença americana só ampliou na economia brasileira, na cultura, na língua. Atualmente, o chamado neoliberalismo procura minar o setor público. No quadro atual em que há tanta miséria, o setor público é o que garante a educação popular, a saúde, as condições trabalhistas, o que está sendo destruído pela ação externa mancomunada com governos, a começar pelo governo golpista Temer. Na medida em que serviços básicos passam para as mãos privadas, a população pobre vira miserável. No plano externo, os Estados Unidos tentam boicotar a União Européia e liquidar pretensões de integração latino-americana através do Mercosul.

A presença de Tio Sam em São Pedro neste carnaval revelou seu interesse pelas águas, pela Mata Atlântica, pela biodiversidade brasileira. Vem apoiado por uma legião de carros, de alimentação agrotóxica, de degradação da música. Por isso, em uma performance de carnaval, o Tio Sam brincava com o globo, à semelhança do que fez Charles Chaplin em “O grande ditador”. De repente, o globo caiu no chão e se partiu. Dentro dele apareceu uma mensagem na qual um esqueleto dizia “Pô, sugaram até meu olho”, e uma caveira afirmava que a política econômica fortemente apoiada pelos EUA deixou a terra seca, os rios poluídos, a vida doente.

Ao longo da performance, pessoas presentes lamentaram o nacionalismo como um fator de guerra e preconizaram a união global. Desfilando por São Pedro, Tio Sam colheu várias reações populares, tais como as que reconhecia sua figura e as que fazia várias cobranças ao Tio Sam: devolver a Petrobrás; e a riqueza que tomou do Brasil....

Termino este artigo, afirmando que o povo deve buscar formas autônomas de organização. A propósito, é lastimável a postura do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella em se recusar a passar as chaves da cidade ao rei Momo e a não prestigiar as escolas de samba no carnaval. Como prefeito, sua função é de ajudar as escolas de samba e blocos que além de tradicionais, representam um polo de organização popular, capaz inclusive de fomentar assistência à população pobre.

Aproveito para deixar aqui minha homenagem a Marisa Lula da Silva que, ao doar seus órgãos, legou-nos uma mensagem social e amiga, dando um exemplo de altruísmo e uma profunda filosofia humanista.

Registro também a visita do historiador suíço Martin Nicoulin e o apoio dado ao projeto de um livro feito por historiadores da região, com que pensamos estar presentes nas comemorações do bicentenário de Nova Friburgo.

Por último, conclamo todos a participar da criação de um espaço, cultural em São Pedro da Serra, (“Papiparotes”) na sala 7, do Cassino Serrano, onde se desenrolou a performance ‘Tio Sam em São Pedro” e está apresentando uma ampla programação para março e início de abril.

Por: Jorge Miguel Mayer

O autor é doutor e professor de História da Universidade Federal Fluminense

VOLTAR À PÁGINA INICIAL