26/03/2017

São Paulo: a “cidade linda” do João Trabalhador

Sandra Mara Ortegosa Sandra Mara Ortegosa
"A cidade passa a ser vista como uma empresa e não como como uma experiência coletiva de exercício da cidadania, como era a polis grega, transformando-se em mera mercadoria. "

Longe de ser uma cidade linda por natureza, como é caso do Rio de Janeiro, São Paulo apresenta uma paisagem urbana agressiva e predominantemente cinza. As qualificações a ela atribuídas comumente expressam a brutalidade que dela emana: “selva de concreto”, “formigueiro humano” caótico, poluído e saturado de torres, casas, favelas e engarrafamentos. O famigerado viaduto Minhocão, obra prima da gestão Maluf, é um dos exemplos mais emblemáticos dessa brutalidade da paisagem paulistana.

A presença do grafite e das mais diversas formas de manifestação da arte de rua, portanto, é fundamental para amenizar o cinza predominante na paisagem de São Paulo, que já se tornou conhecida internacionalmente como a Capital do Grafite, tornando-a mais humanizada. Aliás, uma das características mais interessantes de São Paulo é o seu cosmopolitismo e a sua enorme diversidade étnica e cultural. Aos domingos, a Paulista Aberta, quando a avenida é fechada para o trânsito de ônibus e automóveis, tornou-se um dos principais espaços públicos de manifestações artísticas e culturais, atraindo pedestres e ciclistas dos mais variados lugares de SP e de fora.

Como se sabe, o empresário, apresentador e publicitário João Doria Jr. (PSDB), conseguiu se eleger no primeiro turno em SP, com uma vantagem de mais de 2 milhões de voto sobre o ex-prefeito Haddad (PT), e vem adquirindo notoriedade na mídia graças à sua estratégia midiática de marketing. Destacando-se por uma atuação política performática e populista, Doria tem aparecido seguidamente em público vestido de gari, pintor, pedreiro, motorista, jardineiro, ciclista, cadeirante, etc.

Inaugurou sua gestão com medidas altamente polêmicas de ataque à arte e cultura de rua paulistanas, provocando uma avalanche de protestos na mídia e nas redes sociais. Uma dessas medidas, responsável por um enorme prejuízo ao patrimônio público imaterial, foi pintar de cinza o maior mural a céu aberto de Arte Urbana da América Latina, na Avenida 23 de Maio, com quase 5 quilômetros e meio de extensão, transformando a paisagem urbana local num cenário desolador e inóspito. As pinturas de 400 grafiteiros, contratadas pela prefeitura na gestão Haddad a um custo de R$ 1 milhão, muitos deles reconhecidos internacionalmente, como é o caso dos Gêmeos e do Eduardo Kobra, desapareceram sob o monótono tom de uma tinta cinza: um prato cheio para os pichadores a quem o prefeito declarou guerra e chamou de “bandidos”.

Ainda dentro do programa de zeladoria urbana, ironicamente batizado de Cidade Linda, Doria também deu início a um processo truculento de higienização social, removendo os moradores de rua e seus pertences dos lugares públicos mais visíveis na área central; e expulsando músicos, artesãos e malabares de locais como a Avenida Paulista.

Apesar das críticas que essas medidas têm suscitado, o prefeito vem sendo bem-sucedido em sua campanha publicitária de marketing pessoal. Assim como Donald Trump, comunica-se diretamente com seus eleitores pelas redes sociais e sua página no facebook já tem mais de 2 milhões de seguidores, produziu mais de 1500 fotos e em torno de 50 vídeos, com a intenção de passar a imagem de um gestor competente e atuante - o João Trabalhador. No “Road Show”, um dos mais recentes vídeos publicitários produzidos pela equipe de Doria, todo em inglês, destinado a atrair investimentos internacionais para “o maior programa de privatização da prefeitura de SP”. A ideia é privatizar diversos equipamentos públicos, tais como o Anhembi, o Estádio do Pacaembu, o Autódromo de Interlagos, o Parque do Ibirapuera, o Mercado Municipal, etc.; além de serviços públicos, como a iluminação, o serviço funerário, o sistema de bilhete único e terminais de ônibus. São Paulo aparece nesse vídeo como uma cidade mundial, dinâmica, onde vive metade dos bilionários do país, e onde não existem problemas como favelas, pichações, mendigos, violência, miséria. O lugar perfeito para a realização de negócios!

Por trás dessa visão higienista e mercantilizada de cidade, subjaz a ideia de que o que é público não funciona, de que cultura dá prejuízo e de que a solução é privatizar ou terceirizar os equipamentos, serviços e espaços públicos. A cidade passa a ser vista como uma empresa, que precisa ser funcional e eficiente, e não como uma experiência coletiva de exercício compartilhado da cidadania, como deveria ser, transformando-se em mera mercadoria descartável.

Indiferente à repercussão negativa dessas medidas, o prefeito insiste em prosseguir com seu ataque às manifestações culturais e artísticas, fazendo um corte de 43,5% no orçamento para a cultura, impondo restrições aos blocos de carnaval de rua e reprimindo eventos culturais no Minhocão e na Praça Roosevelt. Com isso, a gestão Doria sinaliza que o uso coletivo do espaço público para manifestações como os grafites ou as festas populares de rua, deverá ser cada vez mais restrito e controlado, a exemplo da proposta de levar a Virada Cultural para locais fechados, como o Autódromo de Interlagos, e de criar “grafitódromos”. O conceito de “cidade linda” do prefeito, onde o colorido dos grafites é substituído por tinta cinza de gosto duvidoso e as festas de rua são confinadas em locais fechados (contrariando a própria essência desses eventos), está mais para uma cidade sem vida, sem poesia, sem pensamento crítico e sem alegria, monotonamente cinza.

Por: Sandra Mara Ortegosa

Arquiteta e socióloga pela USP. Phd em Antropologia pela PUC-SP

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