26/03/2017

A Torre de Trump

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"A História mostra um movimento cíclico que pendula entre a unificação e a separação da humanidade."

Poucos personagens da História abalaram o mundo em tão pouco tempo como Donald Trump. Lembramos de Napoleão e Hitler, do lado do Ocidente, e Átila e Gengis Kan, do lado do Oriente.

Todos eles perceberam o esgotamento das estruturas do mundo de seus tempos e suas ações originaram grandes transformações. Porém, o projeto de cada um deles terminou com suas respectivas mortes pelo fato de ter como centro figuras carismáticas e não instituições duradouras.

A História mostra um movimento cíclico que pendula entre a unificação e a separação da humanidade. Uma tendência busca superar as divisões entre etnias, povos e nações. Esta foi, através do tempo, a grande função dos impérios, das religiões e do dinheiro. A tendência oposta, a da separação, é operada por ideias sobre raça, classe social e estado nacional.

Toda a narrativa da vitória do capitalismo sobre o comunismo foi estreitamente vinculada à ideia de liberdade de circulação, tanto que a imagem da queda do Muro de Berlim tornou-se emblemática do desmoronamento da União Soviética.

Com a globalização, bilhões de pessoas, principalmente na China, na Índia e em seus países satélites, foram retiradas da miséria rural e incorporadas ao sistema capitalista e à vida urbana, tornando-se consumidores. E foi a mão de obra barata desses novos trabalhadores que absorveu o trabalho das classes médias industriais da Europa e dos EUA. Com isso, o mundo foi inundado por produtos mais baratos, enfraquecendo o poder dos sindicatos dos trabalhadores de todo o mundo, base dos movimentos de esquerda.

Embora chineses e mexicanos sirvam como bodes expiatórios na crise do trabalho no mundo contemporâneo, segundo estudos eles podem ser responsabilizados pela perda de apenas 20% dos empregos nos EUA. Os outros 80% devem ser debitados na conta das inovações tecnológicas, estas, sim, devastadora do ponto de vista do trabalho.

Pois estamos vendo surgir os efeitos da quarta revolução industrial. Ela revolucionará definitivamente o que entendemos por trabalho. O dinheiro é outra coisa que irá mudar totalmente. Já estamos convivendo com a quarta forma da moeda.

À primeira vista, Trump parece estar agindo como se fosse, na verdade, aliado dos principais adversários dos EUA: Rússia e China. Ele se afasta de aliados importantes, se isola, rompe tratados comerciais e entrega importante mercados emergentes aos concorrentes. Estranho.

Entretanto, examinando atentamente, e se Trump estiver levando em consideração fatos que estão simplesmente fora de nossa consciência, que não estamos levando em consideração? Desconfio que a resposta está na quarta revolução industrial e na quarta forma da moeda.

A quarta revolução industrial traz inovações como a impressora 3D, a Internet das coisas e o carro sem motorista. Adicionadas à cibernética e a robótica da terceira revolução industrial, tornará o trabalho como conhecemos hoje totalmente obsoleto.

O dinheiro em papel moeda também parece estar com os dias contados. O dinheiro começou como moedas metálicas, evoluiu para o papel moeda e, depois, para o cartão magnético e a senha numérica. Na quarta forma, o dinheiro é incorporado às próprias formas do indivíduo, a biometria, e passa a ser uma parte da pessoa pairando numa conta nas nuvens.

O trabalho como o conhecemos hoje seguirá diminuindo através de jornadas cada vez menores até ser extinto. Entraremos na era do “ócio criativo”, quando não haverá mais distinção entre trabalho, estudo e jogo. Num mundo sem trabalho, o capitalismo só poderá sobreviver através de uma garantia de renda mínima, uma espécie de imposto de renda negativo. A quarta forma do dinheiro facilita a administração desse sistema.

Resolvendo o nó energético, ̶ o que está a caminho com os avanços das pesquisas sobre energias limpas como a eólica, a solar e à base de hidrogênio ̶ , estaremos caminhado para a produção de nosso pequeno paraíso artificial.

E, no paraíso, libertos do trabalho e do dinheiro, o capitalismo e os EUA não necessitarão mais de mão de obra barata. Então, que as fronteiras sejam fechadas e os imigrantes expulsos.

Trump em sua torre, a Trump Tower, verá, um dia, sua política isolacionista desmoronar. Uma nova onda de integração da humanidade está sendo gestada. Revalorizar a História é um bom começo.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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