25/03/2017

Uma Cultura com Sabedoria

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Antes de tudo, precisamos investigar o que seria uma cultura com sabedoria. E para isso seria bom ter uma idéia do que é uma sabedoria que traga liberdade e contentamento plenos. "

Certa vez, li num texto de um mestre budista uma descrição interessante sobre cultura e sabedoria. Ele dizia que a cultura é como uma xícara e a sabedoria o que tem dentro da xícara. Ele explicava que o que importa é o que tem dentro da xícara e não a xícara.

Ao longo dos séculos muitas xícaras surgiram com a intenção de criar mais harmonia e justiça, e menos caos e violência nas relações sociais. Mas nem sempre o que tinha nestas xícaras, por mais bonita, poderosa e elegante que elas fossem, era sabedoria, algo que nos libertava. Muitas vezes, o que havia dentro da xícara era veneno; informações, significados e valores que cada vez mais nos aprisionam num enganoso alívio temporário de nossa condição insatisfatória.

Pensamos que somos livres em nossas manifestações culturais, artísticas e sociais, mas, na verdade, o que normalmente fazemos é apenas repetir antigos padrões em novas formas com nossas reações emocionais inconscientes e autocentradas. Raríssimas culturas fogem da mensagem que realimenta a insatisfação e o apego e reafirma uma visão que enfraquece e confunde nossa capacidade de encontrar contentamento e liberdade.

Por isso é importante nos perguntarmos: O que tem dentro da minha xícara? O que a minha cultura tem oferecido para mim? Sabedoria e liberdade ou ignorância e aprisionamento?

Antes de tudo, precisamos investigar o que seria uma cultura com sabedoria. E para isso seria bom ter uma idéia do que é a sabedoria que traz liberdade e contentamento plenos. Neste sentido, sabedoria seria aquilo que faria você se libertar de qualquer condição para estar contente e satisfeito. Talvez, poderíamos dizer que uma cultura com sabedoria seria aquela que, através de sua forma, conceito e expressão do que considera belo e autêntico, nos levaria a uma realização incondicional da beleza e da autenticidade. Ou seja, uma cultura com sabedoria deveria nos levar a uma felicidade incondicional, livre de ideias e conceitos. Como diz o mestre budista Thich Nhat Hanh:

“Nossas noções sobre a felicidade nos amarram. Esquecemos que elas são apenas ideias. Nossa ideia sobre a felicidade pode nos impedir de realmente sermos felizes. Falhamos em ver a oportunidade para a alegria que está bem na nossa frente quando somos pegos pela crença de que a felicidade deva ter uma forma específica”.

Uma cultura com sabedoria nos ensinaria a ter uma verdadeira apreciação da vida, a total disponibilidade e capacidade de apreciar o mais simples fenômeno, seja ele qual for, ao ver sua natureza pura, pois estaríamos além do que se pode considerar belo ou feio, certo ou errado, perfeito ou imperfeito ou outra qualquer percepção dualista que é onde toda cultura surge e se mantém. Ou seja, o conteúdo da xícara nos levara para além da xícara.

Creio que toda cultura que conduza a essa liberdade é uma cultura digna de ser cultivada. Sem conduzir a esta liberdade, uma cultura apenas nos anestesia do sofrimento de estar preso na roda das experiências dualistas insatisfatórias que não param de girar e nos encaminha para escolhas que nos causam mais sofrimento. Por isso, devemos olhar para dentro de nós mesmos e perguntar: que cultura está dentro de mim?

Nascemos numa cultura, fomos expostos a ela e a absorvemos em nossa infância, adolescência e ainda quando adultos, sem muitos questionamentos. Mas agora que temos a capacidade de questionar deveríamos olhar para o que cultivamos e ainda estamos cultivando em nossa mente e coração e perguntar se isso está nos trazendo liberdade ou aprisionamento.

Creio que para vivermos a liberdade e o prazer que tanto buscamos em nossas vidas temos que olhar para além de nossa cultura com sua falsa verdade, seus conceitos, hábitos e impulsos emocionais com seus apegos e aversões. Talvez aí, livres do fardo do julgamento e da comparação, poderemos ver a exuberância e a riqueza de todas as coisas como elas são.

Há uma história que, de certa forma, exemplifica tudo o que foi dito até agora. É a história do tibetano Marpa que, certa vez, fez uma longa viagem para encontrar novamente o seu mestre budista tântrico Naropa para receber ensinamentos:

“O encontro seguinte de Marpa com Naropa foi muito diferente dos anteriores. Naropa parecia muito frio e impessoal, quase hostil, e as primeiras palavras que lhe dirigiu foram, “Prazer em vê-lo novamente. Quanto ouro você tem para pagar meus ensinamentos?”

Marpa tinha uma grande quantidade de ouro, mas, como queria guardar algum para as suas despesas e para a viagem de volta, abriu a bolsa e só deu a Naropa uma porção do que tinha. Naropa contemplou a oferta e disse, “Não, isso não basta. Preciso de mais ouro do que este para ensiná-lo. Dê-me todo o seu ouro.” Marpa deu-lhe um pouco mais de ouro, mas nem assim Naropa se contentou; pediu-lhe todo o ouro e o diálogo prosseguiu dessa maneira até que, finalmente, Naropa desatou a rir e disse, “Você acha que pode comprar meus ensinamentos com o seu embuste?” Nesse ponto, Marpa cedeu e entregou-lhe todo o ouro que levava. Para seu assombro, Naropa pegou as bolsas e se pôs a atirar o pó de ouro para o ar.

Subitamente, Marpa sentiu-se extremamente confuso e paranóide. Não podia compreender o que estava acontecendo. Ele tinha trabalhado com afinco para ganhar aquele ouro, com o qual pretendia pagar os ensinamentos que tanto ambicionava. Naropa parecia indicar-lhe que precisava do ouro e que, em troca, o ensinaria. E, no entanto, estava jogando tudo fora! Então, Naropa disse, “Que necessidade tenho eu de ouro? O mundo inteiro é ouro para mim!”

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

VOLTAR À PÁGINA INICIAL