25/03/2017

Prosa libertária para um mundo cativo

Dib Curi Dib Curi
"Um libertário acredita na espiritualidade como “sal da terra”, um sabor experimentado aqui e agora e não uma espiritualidade abstrata residindo em outro lugar e tempo como consequência final das nossas ações."

Uma das questões mais complexas é a questão dos rótulos. Existe uma pressa absurda em se rotular as pessoas. Creio que esta é a base do preconceito e da intolerância que vemos no mundo. Muitas vezes, nós próprios queremos nos rotular, pela necessidade de nos posicionarmos dogmaticamente diante das coisas.

Talvez seja o meu caso neste texto. Outro dia, perguntei a mim mesmo qual era o meu pensamento social. Depois de refletir se tinha algo parecido com isto, cheguei a conclusão de que sou libertário, com um forte viés de social-libertário, ou seja, desejo o máximo de liberdade pessoal, mas desejo para meus semelhantes também. Não me enquadro na definição de socialista, pelo menos, naquele socialismo que luta contra o neoliberalismo para decidirem quem vai mamar nas tetas do Estado e condicionar as pessoas a pensarem isto ou aquilo, determinando suas interpretações e rotinas. Acredito que a luta pelo poder é apenas uma luta pelo poder. Logo, suas garras se fazem sentir, principalmente, na formação restritiva da consciência do povo e de sua subserviência.

É lógico que não confundo o socialismo do poder com o socialismo das lutas populares, aquele mesmo que sempre batalhou pela dignidade e pelos direitos de quem trabalha, diante da volúpia dos “interesses” levados à última potência. Desde a Grécia de Sólon que as modificações sociais só acontecem pela pressão popular e se fôssemos esperar pela vontade dos governantes, jamais teríamos tido nenhum progresso social.

Mas o fato é que um libertário é um crítico à volúpia pelo poder, que considera o fundamento dos males sociais. Não vê caminhos para o amadurecimento humano senão a experiência de seus erros e acertos. Não tem a arrogância de querer se colocar acima da Vida para ensinar à evolução natural que caminhos deve seguir.

Contudo, um libertário acredita na ruptura dos condicionamentos sociais como sustentação da espiritualidade real. Só um ser humano consciente do jogo de forças que o constitui conquista uma verdadeira liberdade e civilização. Não a liberdade da vontade submetida aos instintos e nem o desvario dos desejos, mas a liberdade como fruto da auto consciência no potencial de comunhão de todas as coisas e da possibilidade de superação da prisão de um EU inseguro e separado de tudo. Mas este potencial de comunhão só pode se desenvolver à partir do respeito às diferenças, da promoção da diversidade e da compaixão com a dor do semelhante.

Por isto, um libertário coloca o Amor acima de qualquer doutrina religiosa ou social. Assim, eleva a compaixão ao status de Lei Universal, também em relação aos animais e a natureza. Acredita numa Ética que brota de um coração saudável e fraterno ao contrário de uma moral corretiva proclamada por corações doentios e insensíveis que, em nome do prazer e do poder, impõem sofrimentos a milhões de seres humanos e animais. Um libertário acredita que um coração doentio é o fruto amargo do sufocamento da raiz amorosa e criativa da humanidade, efetuado pelos poderes que nos submetem com suas falsas concepções de verdade.

Um libertário acredita mais na realidade do que na verdade. Todavia, enxerga esta mesma realidade historicamente condicionada pelos poderes constituídos. E uma realidade submetida não é exatamente uma realidade, mas apenas um espelho daquele que a submete.

Seria como no mito da caverna de Platão, onde o prisioneiro sai da escuridão das aparências para o mundo luminoso da realidade. Quem nos mantém na ignorância das aparências são os poderes constituídos, que intentam nos fazer seus trabalhadores e asseclas, com suas ideologias materialistas, suas concepções espiritualistas invertidas e suas práticas alienadas de trabalho.

E por falar em trabalho, um libertário deseja estimular vocações e inclinações criativas pessoais como o verdadeiro fundamento do progresso e anseia que cada pessoa seja aquilo que tiver que ser, à partir do que é, não um empregado de qualquer sistema, mas um empreendedor da obra de arte de sí mesmo; um amante existencial e não uma marionete anônima de ideologias e interesses.

Para um libertário a liberdade deve ser conquistada no discernimento da própria consciência. Não se pode libertar ninguém se não realizarmos a liberdade em nós, através do auto conhecimento e separação do joio e do trigo. E não se pode libertar quem não queira ser libertado.

Finalmente, um libertário acredita na espiritualidade como “sal da terra”, um sabor experimentado aqui e agora e não numa espiritualidade abstrata residindo em outro lugar e tempo como consequência final das nossas ações. Um libertário acredita na fertilidade da Terra e do Ser Humano, mas somente, quando entregues às suas verdadeiras potencialidades e vocações.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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