03/01/2017

Seremos mesmo “demasiado humanos?”

Dib Curi Dib Curi
"Somos condicionados a pensarmos do jeito que pensamos e a olharmos o mundo de determinada maneira e a sermos vaquinhas, pastores e ovelhas de um presépio montado pela conveniência dos poderes. "

A vida é uma aventura fantástica, absolutamente única e original. Estar vivo é um milagre sem precedentes. Infelizmente, não conseguimos mais vivenciar isto em sua plenitude porque estamos muito condicionados. Nossos condicionamentos nos aprisionam, nos determinam e nos infelicitam, pois constroem uma casca de formalidades, tensões, auto controle, obrigações e sociabilidade forçada ao redor de nosso EU amante, sensível, livre e experimentador, nos tornando impermeáveis e insensíveis ao fluxo do sentir que brota de nós. Há três tipos de condicionamentos:

1 - Os do organismo (necessidades básicas, instintos);

2 - Os da sociedade (condicionamentos religiosos, políticos e econômicos que geram ideologias, desejos e interesses);

3 - Os da linguagem (palavras e ideologias geram visões e opiniões).

Cada condicionamento exige uma abordagem diferente para ser compreendido, conscientizado e desmontado. O trabalho possível pode se dar nos condicionamentos sociais e de linguagem, pois os do organismo são ancestrais e muito mais dificeis. É preciso muita atenção e disciplina pois a busca incessante pela segurança aponta o nosso desejo para o imobilismo das zonas de conforto, o que nos incapacita a buscar mudanças em nós mesmos e na sociedade.

O fato é que o ser humano ainda não aconteceu. Por um lado, nos falta uma boa dose de sabedoria que alimentaria nossa coragem e desmontaria nosso medo. Mas nos falta também um mínimo de auto-conhecimento para reconhecermos que o que temos de melhor já está dentro de nós.

Bom lembrar o pensador Jean Jaques Rousseau (1712 - 1778), quando disse que o homem é bom e a civilização o corrompe. Grande parte dos nossos condicionamentos vem da sociedade, de seus costumes, morais, regras e rotinas. Acabamos negando o nosso potencial biológico, afetivo e criativo em nome de abstrações convenientes a este ou aquele poder.

É só olharmos as crianças e os jovens; quanta alegria, celebração, afeto e generosidade. Desde cedo, negamos e disciplinamos aquilo que eles são e fazemos isto continuamente. Lógico que isto acaba lhes trazendo problemas psicológicos e de caráter. Uma baita confusão de princípios também. Que mundo podemos construir com pessoas formatadas, artificiais, hipócritas e confusas sobre si mesmas?

Pois a maioria das pessoas está tão perdida que não tem nada a nos trazer senão seus conflitos, suas negações, seus medos, ansiedades e suas constantes tentativas de auto afirmação, o que gera uma baita luta pelo poder e destaque, uma luta sem trégua que expressa toda a nossa insegurança, medo do futuro e o nosso estado de espírito, não só dos políticos, mas de todos nós.

Se somos submissos à esta realidade sombria, se deixamos nossas emoções correrem a reboque deste estado de espírito coletivo é porque desconhecemos quem, de fato, produz a realidade. Esta realidade que temos não é a única possível, mas é um modelo impresso na nossa mente que produz a realidade. Somos condicionados à séculos a pensarmos do jeito que pensamos e a sermos vaquinhas, pastores e ovelhas do presépio montado pelos poderes. Se apenas discutimos e reconhecemos as notícias do jornal; se o nosso foco é o dos poderes constituídos; se somos completamente submissos ao paradigma cultural globalizado e dominante; então não temos possibilidade de mudar nada, pois além de abdicarmos do nosso poder de criadores de realidades, continuaremos, como nossos antepassados, colocando combustível justamente nos antagonismos e nas dualidades que dão forma a este tipo de realidade que interessa aos poderes constituídos. Lembrando Elis Regina, “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.”

Voltando aos jovens reafirmo, como professor, que vejo todo dia quanto potencial os jovens tem de generosidade e de afeto. Por que destruímos isto? Por que substituímos estes valores pela nossa viciosa competitividade narcisista e desconfiada? Sim, pois os jovens entram em contato com nossos propósitos aquisitivos, artificiais e corruptos, nossas culpas, nosso medo, nossa violência, pré-conceitos, ambição, ideologias alienantes e alguns projetos insanos como, por exemplo, uma escola para a mente e não para o coração. E impomos a eles que escolham estas coisas. Obrigamos...

Pois bastaria cultivar o que a criança já tem, o que o jovem já tem. Então pergunto: Como seria um mundo que cultivasse humanos? Mas talvez sejamos estúpidos e menos do que humanos. Ou então, como disse o filósofo Friedrich Nietzsche (1844 - 1900); somos mesmo “demasiado humanos”.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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