14/12/2016

Psicologia social em tempos de crise

Dib Curi Dib Curi
"Uma posição política é uma ferramenta que pode possibilitar um encaixe solidário das visões práticas de mundo do qual depende a comunhão, a justiça e o futuro da Terra."

O autor que ocupa a seção “Mestre de Vida” do Jornal deste mês é um pensador revolucionário sobre vários ângulos. Trata-se de Wilhelm Reich. Uma de suas principais obras é o livro “Psicologia de Massas do Fascismo”, onde ele examina o fenômeno reacionário em momentos de crise e como este fenômeno está embasado na própria psicologia humana. É uma leitura imprescindível para a compreensão do fenômeno do fascismo e também do crescimento do fundamentalismo religioso em muitas democracias ocidentais.

Gostaria de apontar uma outra face do crescimento da mentalidade reacionária entre os brasileiros. Creio que o principal responsável por isto é o fenômeno da polarização política que estamos vivendo nos últimos meses. O extremismo de direita e de esquerda está alcançando níveis tão exagerados que até podemos nomeá-lo de esquizofrenia social, pois abre-se um fosso entre duas posições antagônicas e irreconciliáveis, fosso onde se move uma maioria de pessoas que não se posicionam de uma maneira tão radical à princípio. A radicalização é tão grande que a possibilidade de diálogo se extinguiu e o que prevalece é o julgamento de parte a parte, tipo “coxinhas e petralhas” entre outros adjetivos menos respeitosos.

O fato é que as pessoas que estão neste meio indefinido e sem forma precisam também de uma convicção política diante dos problemas sociais que enfrentamos. Ao mesmo tempo, elas costumam considerar os argumentos racionais fracos e até oportunistas, uma vez que tanto um como outro lado conseguem justificar suas posições baseados na racionalidade. Creio que isto acontece por causa do uso indevido da razão como instrumento de poder, interesses ou mesmo politicagem.

A maioria destas pessoas que não se situam nem à direita nem à esquerda acabam preferindo posições mais emocionais e voluntariosas. É justamente aí que se abre a possibilidade de surgir um salvador inflamado e convicto, tanto religioso como militarista ou mesmo um fascista fantasiado de moralista ou revolucionário. As eleições nos EUA e a vitória de Donald Trump demonstram o enfraquecimento do sistema republicano tradicional, baseado na preponderância de argumentos racionais, com as pessoas transferindo ansiedades para um líder carismático, mesmo que um tanto insano e irracional.

Um estudo sobre a Alemanha antes de 1930, quando se deu a ascensão de Hitler, nos levará à conclusões que parecem ameaçar a nossa frágil democracia.

O avanço do pensamento reacionário no Brasil me leva a refletir também em outras bases, entre elas, a psicologia política. Por incrível que pareça, numa crise econômica a tendência mais forte é o retorno atávico à violência, ao fundamentalismo, ao preconceito e a subserviência do que o anseio pela emancipação. Por que isto acontece? Pois é! Está na hora de aprofundarmos a visão psicológica dos fenômenos sociais. Creio que a leitura do livro (e da obra) de Reich é fundamental para esta compreensão.

Contudo, posso tentar, ao meu modo, desenhar a questão psicológica que perpassa a atual problemática social. Diante do presente quadro de limitação do nosso poder pessoal de ação, sentimo-nos impotentes e esvaziam-se nossas expectativas futuras. Assim, começamos a projetar o passado no futuro numa tendência conservadora e até reacionária. Isto tende a se acentuar, ou seja, a desesperança no futuro, o cinismo e o ceticismo das pessoas, que tendem também a apostar em linhas autoritárias, como se quisessem forçar o mundo à mudança, mesmo insultando e agredindo os outros. Isto só teria solução, na medida que aprofundássemos um pouco mais nossas próprias emoções e nos abríssemos para novas e instigantes leituras da realidade.

Para começar, temos que aprender a ouvir e argumentar. Argumentar não é o processo pelo qual rotulamos, julgamos e enquadramos as pessoas. Pelo contrário, argumentar é ouvir, estar amigavelmente aberto ao outro, ser curioso com as teses contrárias, procurar a concordância possível e, principalmente, estudar o que nos falta compreender. Quanto à opinião, ela não é uma religião pessoal, à qual não podemos trair por ser um dogma incontestável no qual apoiamos a nossa auto estima. Pelo contrário, opinião é apenas um momento passageiro da nossa visão de mundo, algo que deve amadurecer como um vegetal que procura a luz. E posição política não se configura num processo de apartheid, à partir do qual disparamos desqualificações, condenações e ironias para o outro lado. Posição política é uma ferramenta fundamental que pode possibilitar um encaixe solidário das visões práticas de mundo do qual dependem a comunhão, a justiça e o futuro da Terra.

Um problema de crenças

No fundo, os problemas do mundo estão enraizados nas crenças das pessoas. O mundo só não evolui porque as pessoas não abrem mão de suas crenças. E é sabido que crenças opostas geram conflitos sem solução. O fato mais grave é que a própria vivência e rotina das pessoas está presa em suas crenças macro econômicas ou macro políticas, todas elas justificadas inconscientemente por profundas crenças religiosas milenares. A pessoa costuma dizer: “vejo logo creio”, quando o certo é o contrário. Assim, o diálogo tornou-se enfadonho e repetitivo, quando não é impossível, porque todos procuram argumentos que justifiquem e acariciem suas crenças.

Para simplificar a discussão, eu diria que acredito numa determinada posição ideológica à partir de três critérios principais: o grau de liberdade que ela supõe, a intensidade do Amor que ela pratica e a abertura para cenários futuros criativos que ela prescreve.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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