11/01/2016

Doping midiático

Cacau Resende Cacau Resende
"O que está por trás dos discursos moralistas destes políticos enraizados no poder e criados no berço do clientelismo?"

A aliança

Desde o primeiro texto, tenho me dedicado a trazer para você, meu caro leitor, informações sobre a construção e o funcionamento da sua cidade. Qual a influência das questões políticas, econômicas e sociais, e quais são as possiblidades de solução dos seus problemas. Vamos manter esta linha. Hoje vamos discutir sobre o enredo político em que se transformou a crise política e econômica no País. Que na verdade, e os fatos têm comprovado, se trata de uma verdadeira disputa de poder.

O que tenho observado nas rodas de conversa, é que a maioria das pessoas, críticas do governo, tem a mesma fala, como um carimbo a imprimir sempre a mesma imagem. Não notaram ainda que estão fazendo exatamente o que a mídia deseja, repetindo tudo, palavra por palavra, exatamente igual. Não tenho dúvida, esta é uma estratégia combinada entre quatro paredes, através de uma aliança entre grupos dominantes, da mídia e do capital financeiro globalizado. A população ainda não percebeu, mas está sendo conduzida, com uma espécie de antolhos, para que não se distraiam e percam os caminhos tracejados por eles. Costumo chamar isto de doping midiático.

Ação entre amigos

Agora, não conseguiremos entender tudo que se passa apenas com uma visão conjuntural simplificada do momento em que isto se dá. É necessária uma análise mais profunda e dentro de um espaço histórico mais estendido.

Há muito tempo que os políticos têm influência direta nas propostas de desenvolvimento das cidades, principalmente quando o Estado passa a assumir a maior parte dos investimentos urbanos. Com o início da industrialização, um urbanismo ditado pelos governos e suas políticas clientelistas, começou a ser aplicado nas reformas das cidades com um único objetivo: atender a nova classe social emergente e tipicamente urbana, a burguesia. A partir daí, pouco a pouco, os problemas começaram a surgir, até tomarem a forma que conhecemos hoje. Impossibilitada de viver nos grandes centros urbanos, em decorrência do seu baixo poder aquisitivo, a grande massa de trabalhadores começou a migrar para as periferias, nas áreas sem quaisquer infraestruturas, onde os terrenos e alugueis, eram mais compatíveis com sua renda, formando verdadeiras favelas e guetos. Enquanto isso, a política clientelista distribuía os recursos como uma espécie de ação entre amigos, todos pertencentes ao clube decisório. Aos grupos financeiros, que exigiam mais recursos centrados no acumulo de capital, à nova classe social, que exigia a aplicação nos locais de sua permanência, e a determinados setores empresariais, que exigiam a aplicação dos recursos nas áreas de seus interesses, onde obtinham mais benefícios, decorrentes da valorização especulativa das terras.

Como resultado disto tudo, - processo produtivo voltado para o mercado de consumo das elites nacionais e estrangeiras, em prejuízo da valorização do trabalho e do mercado interno, incompetência e desonestidade dos políticos para resolver os problemas nas áreas onde os trabalhadores se concentravam, falta de recursos devido as sucessivas crises econômicas - vimos acumular um déficit social e urbano cada vez mais difícil de ser resolvido.

Um novo horizonte

Foi a partir de 2003 com a vitória do PT, que uma conjunção de fatores abriu uma nova perspectiva de mudar este quadro de desigualdade social. A economia começa, pouco a pouco, a se redirecionar para o mercado interno e de bens populares: habitação, infraestrutura, transporte, educação e saúde, entre outros. Esses investimentos e o permanente combate à miséria, promovido pelo bolsa-família, qualificado pela ONU como o mais perfeito instrumento de distribuição de rendas, colocaram milhões de brasileiros num patamar mínimo de dignidade humana, promoveram outros tantos ao nível da classe média e proporcionaram a milhares de brasileiros que viviam na marginalidade, oportunidades de novos empregos e pela primeira vez, acesso às universidades. Segundo o prof. Tarso Genro:

“Nós tivemos a felicidade de ter nos dois primeiros governos do PT..., um conjunto de políticas que explorou as margens mais expansivas das possibilidades de mudanças, que conseguiu, com uma ginástica do genial companheiro presidente Lula, ..., ao mesmo tempo reportasse ao capital financeiro globalizado, e desenvolver um conjunto de políticas sociais, de políticas educacionais, de políticas de educação e de formação técnica, de políticas de desenvolvimento cientifico e tecnológico, de políticas de bloqueio das privatizações, que conseguiram gerar uma alternativa mínima de inclusão social e distributiva em nosso País.”(texto, grav.Maio15)

Fim de ciclo, a direita mostra a cara

Infelizmente, e sem percebermos, deixamos escapar, - talvez, logo no início do segundo mandato do governo Dilma - o momento exato de promovermos mudanças estruturais nas políticas de sustentação e apoio ao governo e na política de desenvolvimento.

E agora, o que está acontecendo que não conseguimos enxergar? Porque as pessoas não percebem que todos estão repetindo a mesma coisa que a mídia, aliada a política financeira capitalista globalizada, quer que digamos? Mas o que será que realmente está em jogo? O que está por trás dos discursos moralistas destes políticos enraizados no poder e criados no berço do clientelismo? São velhos conhecidos, achacadores das instituições públicas e da população brasileira.

Vejamos o que o prof. Tarso Genro tem a nos dizer:

“Mas qual é o cenário adverso que nos puxa agora? É que nós estamos num momento de fim de ciclo , de época , de fim de uma etapa desta inserção, ...em que o capital financeiro globalizado não quer mais conciliação, ele exige nada mais nada menos que o controle absoluto social, da aceleração das privatizações, da continuidade do processo de acumulação sem trabalho, das grandes agencias financeiras privadas globais, ele precisa sequestrar isto, tirar isto, de Países que tem o que dar, e nosso País tem o que dar, ...é um pais que pode ser mais profundamente sequestrado do que foi ao longo de sua história.” (trecho,grav.Maio15).

O que está em jogo é muito mais que uma discussão sobre corrupção, é muito mais que forma governo ou governança, é muito mais que sistema político. O que está em jogo é um projeto de Nação!

Em busca de uma saída

O que podemos fazer? De minha parte venho tentando mostrar as pessoas uma visão conjuntural mais abrangente, mais aprofundada, diferente desta que a mídia impõe e as obrigam a seguir.

O momento nos exige, primeiro, um certo distanciamento das discussões preconceituosas e inóspitas, para sairmos desta espécie de cegueira que nos impede de enxergar a realidade do quadro em que nos encontramos. E então, darmos início a uma análise e reflexão, com responsabilidade, através de informações claras e substanciadas, sem esta visão estreita e estanque, mas levando em consideração todas as experiências vivenciadas dos problemas, ao longo da história política e econômica. Desta forma, talvez possamos encontrar uma saída para esta embromação que a mídia tenta nos convencer.

Amigos e amigas que me acompanham nesta luta, desejo a todos e a todas, um feliz Natal, um próximo ano que se anuncia, cheio de realizações, paz e amor, e que Ele possa nos iluminar e a todos brasileiros, para juntos, encontrarmos respostas para essas questões.

Por: Cacau Resende

Cacau Rezende é engenheiro e artista plástico.

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