03/09/2015

Lei de Gerson

Cacau Resende Cacau Resende
"O que está em jogo é muito mais que acabar com a corrupção, é um projeto de Nação!"

Estamos atravessando um período de mau tempo no País, a corrupção é endêmica e institucionalizada. Apesar disto, vocês podem até achar meio fora do comum, este é um momento distinto, que pode ser proveitoso se fizermos uma análise mais profunda de sua evolução. Para nos ajudar a entender o que está acontecendo, vejamos agora um pequeno resumo sobre a corrupção no Brasil.

Para muitos autores “tudo começou quando os portugueses trouxeram, para colonizar o Brasil, o que existia de pior na Europa: Ladrões, estupradores, malfeitores, enfim, tudo quanto é tipo de escória!

Daí minha gente, como dizia Pero Vaz de Caminha, “em se plantando tudo dá”, esse pessoal foi se estabelecendo, vivendo por aqui e acabou se multiplicando por todos lugares.

Segundo registros daquela época, as primeiras falcatruas são atribuídas a funcionários públicos que praticavam o comércio ilegal dos produtos brasileiros. Dizem que Portugal sabia de tudo, mas não fazia nada contra para não atrapalhar os rendimentos da aristocracia.

E esta prática não parou mais!

Existem relatos que durante a escravidão, políticos e demais autoridades públicas, mesmo com o tráfico proibido compravam escravos recém-chegados da África.

Mas foi no período do Brasil império que iniciaram uma nova modalidade de corrupção, com prática até hoje: a corrupção eleitoral!

Este foi sem dúvida um marco da corrupção na política.

Com a República a corrupção eleitoral foi aprimorada com a introdução do voto “cabresto”. O proprietário de latifúndio ou simplesmente “coronel” era quem determinava o voto dos seus empregados, ou então praticava a compra direta dos votos.

Um outro exemplo, acontecido em1898:

Para garantir apoio ao presidente eleito Campos Sales, implantaram um sistema, conhecido como “sistema de degola”, onde qualquer deputado eleito contra o governo, simplesmente era excluído da lista de apuração. Esta prática permaneceu até 1930.

Um caso que vale lembrar é do famoso político paulista Adhemar de Barros, conhecido como “um fazedor de obras”, seu lema era “Rouba, mas faz! ”. Existia uma “caixinha” que arrecadava dinheiro entre os empresários, empreiteiros, fornecedores e bicheiros em troca de favores e benefícios.

Nem os golpistas de 64 escaparam das tentações:

Caso Capemi - grupo privado (Caixa de Pecúlios, Pensões e Montepios), fundado e dirigido por militares, que recheado de dívidas e falcatruas, veio a falência trazendo prejuízo a milhares de pensionistas.

Caso Coroa-Brastel - uma embrulhada que envolveu o empresário Assis Paim e os ministros da economia Delfim Netto, da fazenda Ernane Galvêas e o presidente do Banco Central, Carlos Langoni, que acabou em prejuízos para o Estado.

Com o fim do governo militar (1964-1985) e o retorno dos civis à presidência, aconteceu um dos maiores esquemas de corrupção, “Esquema PC” como ficou conhecido, elaborado pelo tesoureiro da campanha Paulo César Farias, que acabou com o impeachment do então presidente eleito Fernando Collor. ”Fonte: portal São Francisco

Como vimos, a roubalheira não é um fato novo para ninguém, ao contrário, os exemplos mostram que faz parte da nossa história. E nem se pode afirmar que em tempo algum houve nada de semelhante proporção. Afinal, quando houve possibilidade de investigação e apuração como estamos presenciando?

Mas esta prática não se limitou aos altos escalões públicos, trata-se de uma questão constante e presente no cotidiano do cidadão comum, desde o pagamento de propina ao guarda de trânsito até a venda de votos em troca de benefícios. A “lei de Gerson” está mais que nunca presente na nossa vida, todos querem levar algum tipo de vantagem!

A corrupção só vai acabar, ou pelo menos diminuir consideravelmente quando, primeiro, deixarmos de ser tolerantes com estas práticas, e quando houver maior controle das contas públicas, cumprimento das leis e punição rígida dos envolvidos com falcatruas.

Agora está na hora de adotarmos uma postura mais rigorosa em relação a responsabilidade e uso do dinheiro público e exigirmos um nível político mais elevado. Só devemos ter o cuidado de não nos perdermos em discussões frenéticas e odiosas, que não ajudam em nada, muito pelo contrário, funcionam como uma espécie de véu negro que cobre nossos olhos, e sem percebermos, encantados pelos discursos empoados de falsos moralistas, acabamos caindo nas velhas armadilhas das oligarquias e clãs políticos que sempre dominaram a política brasileira. Não dá para sermos ingênuos e acreditarmos em “salvadores da pátria”, principalmente, quando conhecemos muito bem os antecedentes de cada um destes políticos treinados nas vantagens do clientelismo. A questão da corrupção existe de fato e precisa acabar, mas será que não está sendo utilizada apenas como maquiagem para esconder a verdadeira intenção destes arautos da moralidade?

Mas então, o que está realmente em jogo?

O que está em jogo é muito mais que acabar com a corrupção. É um projeto de Nação!

Queremos continuar com a proposta econômica voltada para o mercado interno, com melhor distribuição da renda e maiores investimentos urbanos em habitações, infraestruturas e serviços sociais como vinham acontecendo. Mais que isto! Agora queremos avançar!

A solução dos problemas das nossas cidades depende de um conjunto de ações voltado para uma verdadeira reforma urbana. Entretanto as mudanças necessárias não significam uma simples troca de governante, mas uma governança que garanta a continuidade desta lógica de produção, apropriação e consumo do espaço urbano, com a participação da sociedade civil no processo decisório. E não o retorno ao modelo capitalista voltado para o consumo elitista nacional e estrangeiro, como desejam os golpistas, mascarados pelos discursos moralistas. Que fique bem claro!

Por: Cacau Resende

Cacau Rezende é engenheiro e artista plástico.

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