24/03/2014

Além de coisas e condições

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"A idéia de que podemos ter algo melhor do que temos hoje é uma das mais terríveis armadilhas que preparamos para nós mesmos"

Certa vez, conversando com um amigo sobre como somos prisioneiros do jogo de buscar a felicidade e de evitar o sofrimento. Ele comentou que achava que as pessoas hoje não estão mais buscando a “felicidade”, mas estão se contentando em apenas sobreviver e ter momentos felizes.

Seja de uma forma ou de outra, as pessoas continuam com a atitude de ter aversão a algo que desagrada e desejo pelo que agrada, característicos do jogo ilusório da busca da “felicidade”.

Talvez você esteja se perguntando: “Mas isso não é o que temos que fazer; buscar a felicidade e evitar o sofrimento?

A idéia da felicidade não é uma ilusão ou algo impossível, mas a forma pela qual buscamos realizá-la é que parece ser um equívoco.

Buscamos a felicidade nas “coisas”. Achamos que a experiência da felicidade e do sofrimento é determinada pelas “coisas” que conseguimos e mantemos conosco sejam elas “coisas” materiais, emocionais, sociais ou mesmo espirituais. Mas se investigarmos cuidadosamente, veremos que esta visão é fantasiosa e irreal, uma ilusão que temos acreditado por muito tempo e que tem sido a verdadeira razão de nossa infelicidade, insatisfação e sofrimento.

Por exemplo, a idéia de que podemos ter algo melhor do que temos hoje é uma das mais terríveis armadilhas que preparamos para nós mesmos.

Lembro-me de uma vez em que era dia das crianças e estava com meu filho num shopping para comprar um presente para ele. Ele queria um relógio novo. E eu queria dar outro presente para ele, pois ele já tinha um bom relógio em bom estado. Mas ele queria um modelo novo de uma certa marca.

Em meio às negociações com meu filho, percebi como que freqüentemente estamos enredados em um mecanismo de sofrimento onde desvalorizamos o que temos por causa de algo que consideramos melhor, diferente ou novo. No caso do meu filho, ele queria um novo modelo de relógio que o deixaria contente por um determinado tempo até ser lançado mais um novo modelo que iria fazê-lo se sentir insatisfeito mais uma vez com o que ele tem.

As perguntas que me vieram na hora foram: Quando isso terá fim? Quando a insatisfação será satisfeita?

Isso pode parecer engraçado quando vemos acontecer com uma criança, mas e quanto a nós? Qual é o nosso mais novo e recente modelo de felicidade? Quando tivermos “o relógio novo” ficaremos satisfeitos ou logo em seguida veremos algo mais novo e diferente ou “melhor” e iniciaremos todo o processo novamente de insatisfação, desejo, e conflito do “que é” com o “que deveria ser”?

Quando pensamos em termos materiais, em como associamos nossa felicidade a esse fútil jogo do desejo de obter mais coisas novas como um relógio, um carro ou uma casa, fica de certa forma (mas nem sempre) fácil de compreender como criamos sofrimento desnecessário para nós mesmos e para os outros. Mas quando pensamos em termos de idéias e emoções fica mais difícil de compreender e aceitar isso. Será que é futilidade querermos um amor “melhor”, um prazer “melhor”, relacionamentos “melhores”? Essas não são “coisas” dignas de se desejar e buscar para nossas vidas?

O problema não está em ter novas experiências emocionais e nem mesmo em obter coisas que podemos usufruir. Mas quando baseamos nosso estado de satisfação em coisas e condições novas, melhores e etc. aí entramos em apuros.

Normalmente nossa satisfação está associada a certas condições e expectativas e é aí que reside o perigo. Será que é possível ficar onde estamos sem acrescentar ou retirar nada de novo e experienciar e apreciar cada momento de forma satisfatória e renovadora pelo que ele é? Novamente eu pergunto: quando a nossa insatisfação crônica será satisfeita?

Meditar e contemplar sobre essas perguntas pode nos dar a presença necessária para nos flagrarmos preparando armadilhas contra nós mesmos e destruindo uma felicidade que está sempre disponível de forma livre e incondicional, sem manipulações e esforço, além da idéia de conseguir ou se livrar de algo de qualquer natureza.

Como diz o Lama Tibetano Chogyam Trungpa “a verdadeira experiência, que está além do mundo dos sonhos, é a beleza, as cores e o entusiasmo da experiência real do agora na vida cotidiana”.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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