22/03/2014

A solução definitiva é o Amor

Dib Curi Dib Curi
"Um mundo baseado no individualismo é um mundo pobre em trocas pessoais significativas e em relações humanas orgânicas e verdadeiras."

Ultimamente, tenho estudado e refletido sobre alguns temas importantes, tanto no âmbito social como em relação à nossa evolução espiritual. Tenho me perguntado sobre as reais possibilidades de melhoria social, sendo a maioria das pessoas tão interesseiras e egoístas para um objetivo tão nobre. Me lembro das palavras do Eclesiastes:

“O que tem sido, isso é o que há de ser; o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há que seja novo debaixo do sol.”

Esta é uma afirmação bastante pessimista em relação ao mundo. Penso que podem haver duas razões para isto: Ou a essência do mundo é corrupta e expiatória ou a existência do ser humano está mergulhada numa ilusão.

De minha parte, creio que existe uma ilusão de que somos separados das coisas. Esta é uma visão comum às diversas doutrinas religiosas do oriente. Na Grécia arcaica, o pecado consistia na separação da aparência em relação à essência. Na história do ocidente, a razão sempre foi instrumento de conhecimento, controle, previsão e autonomia. Acabamos acreditando nas separações criadas entre sujeito e objeto, indivíduo e natureza ou mente e matéria, como sugeriu René Descartes.

E não é só isto. Nos últimos 600 anos parecemos ter nos desligado completamente dos valores universais que nos acolhiam: Deus, natureza e comunidade. Atualmente, damos passos firmes para desconstruirmos também os valores da família. O exemplo é o desinteresse de muitos pais em educarem e darem limites aos filhos, colocando toda a responsabilidade nas escolas. Muitos pais e mães consideram as obrigações familiares limitadoras de sua liberdade.

Aliás, a liberdade passou a estar relacionada com a diminuição de deveres. A razão para isto é o cansaço pela vida muito competitiva e a busca obsessiva do prazer e do consumo entendidos como realização pessoal. Mergulhados na negação de deveres que correspondem aos direitos dos outros e de todos juntos, vemos declinar a noção de cidadania e também os espaços públicos. A própria política se transformou na afirmação dos interesses privados.

Nos últimos três séculos, principalmente, prosperou o individualismo e multiplicaram-se as suas mazelas: narcisismo, hedonismo, utilitarismo, vaidade, competição e egoísmo. Tais comportamentos estão ausentes nos povos que têm raízes comunitárias fortes.

Não resta dúvida de que a melhor expressão para definir o ser humano atual é: um alienado. Tendo quebrado o seu elo orgânico com a natureza e com a comunidade, só lhe resta lutar sozinho pela subsistência e sucesso, reforçando ainda mais seu egoísmo. A ansiedade de se resguardar da insegurança do mundo exterior leva-o à busca da vitória profissional à qualquer custo, esgotando a si mesmo e ao planeta.

Acabamos todos por colher os impactos de uma sociedade onde as ambições e desejos pessoais pisoteiam impunemente a ética, o ambiente e a verdadeira celebração, porque ninguém celebra sozinho. Por isto, nossas festas são festas sensoriais e, ao invés da alegria compartilhada, buscamos a excitação no outro como objeto. Nossa ética é de resultados (utilitarismo) e não de princípios. Vivemos em pleno “darwinismo social”, onde impera a lei do mais forte.

Ao mesmo tempo em que o EU busca sem sucesso a sua tão sonhada autonomia sem ser incomodado por ninguém, enterra em definitivo as suas possibilidades de auto realização pela comunhão. Seria como a tentativa de fazer brotar bromélias no deserto ou de fazer uma formiga prosperar sozinha. Como tudo na natureza, o ser humano também tem condições ideais de “temperatura” e “pressão”. Não somos apenas indivíduos. Somos células de corpos maiores: a a comunidade, a humanidade, o planeta e Deus. Nossa saúde psicológica está relacionada a este “pertencimento”. Não há caminhos para uma realização verdadeira sem reconhecermos isto. Ter não é Ser. Desprezar a totalidade do que somos é desprezar os valores prioritários para a nossa harmonia. Somos parte! A condição que nos levaria de volta ao espírito das coisas é este pertencer: o Amor, a compaixão e a amizade.

Além disto, um mundo individualista é pobre em trocas pessoais significativas e em relações orgânicas e verdadeiras. A totalidade das experiências disponíveis neste mundo nunca contemplam a nossa necessidade de expressão, reconhecimento e comunhão. No dizer de Cora Coralina, em dedicatória:

“A paz está no lar

Assim como o trigo está no pão

e a fruta está na semente.”

Não há nada que seja mais urgente valorizar do que a verdadeira amizade. Nela estão as bases da família, da comunidade, do respeito à natureza e do amor a Deus, o TODO espiritual no qual estamos mergulhados. A amizade é o primeiro passo em direção ao resgate dos nossos melhores valores sociais. Não devemos permitir que o sistema econômico atual continue nos isolando uns dos outros, porque isto nos enfraquece. A única solução é estarmos cada vez mais disponíveis para os outros, resgatando a liga da nossa união fraterna, através da amizade e da compaixão. A solução definitiva é mesmo o Amor.

Por: Dib Curi

O autor é professor de Filosofia e editor do Jornal Século XXI

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