23/07/2013

Sobre a preguiça e a mentira ...

Ricardo Lengruber Ricardo Lengruber
"Preguiça e mentira não são “maldades” em si mesmas; são características do modo humano de ser."

Há pecados sem os quais a humanidade não teria sobrevivido. Nossos ancestrais nos ensinaram, evolutivamente, que a vida exige de nós mais do que o “politicamente correto” anda apregoando por aí. Parece brincadeira, mas há um abismo quase intransponível entre aquilo que se diz (que simulamos ser o melhor, o desejável) e o que se faz (que, via de regra, deveria ser combatido e evitado).

De todos os comportamentos que desejamos evitar – porque assim nos ensinaram nossos pais e avós – a preguiça e a mentira estão entre os principais. Mentir significa faltar com a verdade; ser preguiçoso é ameaçar o trabalho. E isso é mau; afinal, verdade e trabalho são os pilares sobre os quais se edificam nossa sociedade.

Na prática, porém, mentira e preguiça são locomotivas do jeito humano de tocar a vida. Não fosse a eterna preguiça que nos possui, pouco teríamos progredido tecnologicamente. Parte – grande parte – de nossa cultura é fruto da intervenção humana sobre a natureza com o propósito de fazê-la mais amigável. As intempéries serviram-nos de alavanca para a invenção. Nesse sentido, a criatividade é filha da preguiça!

Gosto de pensar que proezas da engenharia e da mecânica são resultado, em última análise, da eterna preguiça que nos consome todos os dias e que nos impulsiona a buscar alternativas menos cansativas e onerosas. Fôssemos desprovidos da preguiça, estaríamos ainda habitando cavernas, fugindo de animais e contando com a sorte para encontrar uma fruta saborosa no campo.

Outro pecado que nos habita, desde as entranhas, é a mentira. Causa asco em almas mais “desenvolvidas” assumir essa condição, mas o fato é que somos, todos, mentirosos. Na verdade, não somos; aprendemos a ser. Mentira não é inata, mas adquirida. Desenvolvemos essa faculdade para tornar a vida menos crua e, como tal, menos cruel.

Por incrível que pareça, há até um toque de ética nessa empreitada: mentimos para não machucar, para alimentar esperanças ou, mesmo, para escamotear sofrimentos inevitáveis. Um dia sem mentiras é virtualmente impossível. Sinceridade, ao extremo, é como tortura.

Preguiça e mentira não são “maldades” em si mesmas; são características do modo humano de ser. Bondade ou maldade – a despeito da mania maniqueísta que nos condiciona – estão nas intenções que nos movem ou nos estacionam.

Bendita a preguiça que nos alavanca à inventividade e a mentira que nos impede de fazer da verdade um açoite. Maldita a mentira que esconde a luz e induz ao erro; maldita a preguiça que nos afunda em nós mesmos; a preguiça que estagna e a mentira que oprime.

Entre o certo e o errado, há um sem número de matizes. Por preguiça, preferimos taxar apenas os extremos e mentimos para nós mesmos e chamamos a isso de moral. Essa moralidade, todavia, por ser exigente demais, excita nossa preguiça outra vez e inventamos novas mentiras para torná-la viável.

E assim a vida segue: entre preguiças e mentiras. Assim somos nós!

- Mentira! Há mais sobre nós.

Mas, por hoje, chega; bateu uma preguiça danada de continuar ...

Por: Ricardo Lengruber

Ricardo Lengruber é professor, doutor pela PUC Rio e membro da Academia Friburguense de Letras. Leciona História e Filosofia na Universidade Cândido Mendes e nas Faculdades Bennett.”

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