22/07/2013

Ecos da Guerra

Felipe Tourinho Felipe Tourinho
"Bósnia e Ucrânia fazem parte das chamadas linhas de fratura, regiões entre duas civilizações e que, segundo alguns, seriam os lugares mais prováveis para o início das novas grandes guerras. "

Em 28 de junho de 2014 se completarão os cem anos do início da Primeira Guerra Mundial. Devemos nos lembrar de que, se não temos inimigos externos a nos ameaçar a vida, muitos de nossos ancestrais recentes vieram fugidos de situações de genocídio, cujos efeitos ainda reverberam em nossas histórias pessoais, sendo, inclusive, responsáveis pela transmissão de geração em geração de comportamentos neuróticos originados em traumas de guerra.

Por isso, é preciso compreender as causas e estar atento aos ecos das duas Guerras Mundiais que marcaram o século XX. Que lições elas deixaram para a humanidade?

As causas da Primeira Guerra devem ser procuradas cinco séculos antes, quando a Europa iniciou seu ciclo de expansão através das descobertas feitas pelas grandes navegações e do domínio da pólvora, o que resultou no uso das armas de fogo.

É o que foi chamado por Marx de “acumulação primitiva do capital”. Primeiro, foi o domínio das rotas de comércio com a Ásia (Índia, China e Japão). Depois, o genocídio dos ameríndios para a apropriação do ouro e da prata. Veio então a escravização em massa de negros africanos para trabalhos forçados nas plantações de açúcar, tabaco, café e algodão e nas minas de metais preciosos.

Como naquela época os produtos asiáticos eram muito mais baratos e bem feitos, os europeus só podiam adquiri-los com o ouro e a prata extraída pelos negros africanos nas terras dos ameríndios dizimados.

E como se adquiria os escravos africanos? Muitas vezes trocando os infelizes por mercadorias viciantes como a aguardente de cana e o tabaco. Com o tempo, os próprios camponeses europeus foram expulsos de suas terras para formarem nas cidades o “exército industrial de reserva”. Esse contingente de pessoas despossuídas alimentaria as primeiras fábricas de manufatura de tecidos, cuja matéria prima vinha dos campos de algodão cultivados por escravos nos Estados Unidos e das pastagens de ovelhas dos latifúndios europeus formados pelas terras dos camponeses expulsos para as cidades.

E, não esquecer que, na Europa do Leste (Rússia, Prússia e Polônia), a aristocracia escravizava os camponeses.

Bem, acredito que tudo isso gerou uma espécie de “carma” que se abateu tempos depois sobre a própria Europa. Os interesses do complexo industrial militar, as disputas coloniais entre as potências européias, a decadência dos impérios russo, austro-húngaro e otomano, incapazes de controlar suas fronteiras, o eterno conflito entre povos germânicos e eslavos e a demanda de expansão territorial dos países que entraram tardiamente no capitalismo (Alemanha, Itália, Rússia e Japão), todas essas foram as causas imediatas do conflito.

E foi a região dos Bálcãs o local onde todos estes fatores históricos se reuniram para dar a partida ao conflito que, para o historiador Eric Hobsbawn, provocaria o início do seu Breve Século XX, que duraria de 1914 até 1989, ano da Queda do Muro de Berlim

A Segunda Guerra teve início em 1941. Seus fatores desencadeantes foram a tentativa da Alemanha de anexar ao seu território países do Leste Europeu, a invasão da China pelo Japão e a anexação de países do Norte da África pela Itália.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o capitalismo viveu uma era de ouro, chegando a vencer a Guerra Fria contra o comunismo em 1989. Em 2008, entretanto, o chamado neoliberalismo levou o mundo a uma depressão econômica comparável á de 1929.

E quais são os Ecos que atualmente ouvimos do grande grito de guerra que teve início em 28 de junho de 1914, quando o príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro (germânico) foi assassinado por um militante Bósnio (eslavo)?

Vemos, hoje, o Leste Europeu disputado entre uma União Européia em crise e uma Rússia desejosa de restabelecer a áreas de influência dos seus tempos de império e de União Soviética. A convulsão social por que passa a Ucrânia é um bom exemplo disso.

No oriente Médio, os despojos do Império Otomano continuam sendo disputados nos conflitos árabe-israelense, na guerra civil da Síria e na ocupação do Iraque.

China e Japão trocam hostilidades numa escalada preocupante por causa de ressentimentos originados na Segunda Guerra Mundial.

E, hoje, no Brasil, no início de março de 2014, lemos notícias da crise política na Bósnia-Herzegovina, um dos países mais pobres da Europa, mas que não faz parte da União Européia, e onde 90% da população é mulçumana. Em sua capital, Saravejo, cidade na qual teve origem o incidente que serviu de estopim da Primeira Guerra Mundial, manifestantes pedem o fim de um governo corrupto e ineficiente.

Bósnia e Ucrânia fazem parte das chamadas linhas de fratura, regiões entre duas civilizações e que, segundo alguns, seriam os lugares mais prováveis para o início das novas grandes guerras. As duas regiões são sensíveis para a Rússia. A Ucrânia, devido à sua importância para o controle dos estreitos de Bósforo e Dardanelos, é fundamental para a saída da marinha Russa do Mar Negro para o Mediterrâneo e o Atlântico. Já a Bósnia envolve o conflito entre eslavos e germânicos nos Bálcãs. O ressentimento entre essas duas etnias, em parte gerado a partir de episódios da Segunda Guerra Mundial, foi um dos motivos da guerra que se sucedeu à desintegração da Iugoslávia.

Por: Felipe Tourinho

Felipe Tourinho é médico homeopata e acupunturista

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