09/05/2020

As coisas não parecem bem. Mas há muito que podemos fazer

Alexandre Saioro Alexandre Saioro
"Parte da aprendizagem em nossas vidas é sempre aprender como se adaptar a novas situações. E aqui isso significa lidar não apenas com a situação pandêmica imediata ..."

E de repente tudo parou e estamos sem saber como e onde tudo isso vai parar.

Este breque tão abrupto no mundo e em nossas vidas nos deixou com muito medo diante de tantas incertezas. Nós não gostamos de incertezas e de mudanças que não foram planejadas por nós. Mas é uma ilusão pensarmos que temos alguma certeza e segurança. Na verdade, todos os temores de perda e de morte que temos hoje, nós sempre tivemos, só não dávamos a devida atenção. E este pequeno vírus veio pra mostrar nossa real situação. E se soubermos nos posicionar e olhar sem fixações para tudo o que está acontecendo, podemos descobrir uma vida mais real e satisfatória. Mas nossa tendência é querer retornar para o nosso normal, nossas fixações, hábitos, apegos e ilusões mesmo que eles se mostrem não muito saudáveis.

Mas será que este vírus vai nos deixar voltar para o nosso “normal”?

Muitos apostam que o mundo não será o mesmo após a pandemia. Talvez estejam certos. Só não sabemos se será para melhor ou pior. E se voltarmos a ser o mesmo, creio que também não será nada bom. Mas independente de como o mundo será ou não após a pandemia o que mais importa é como cada um está passando por este momento, pois seu mundo é a sua mente. Portanto, quanto mais abrirmos mão de nossos planos, desejos e exigências mais estaremos livres do medo, da insegurança e do sofrimento.

Este é o mundo novo que sempre esteve aqui, mas só agora você pôde ver. Este é um momento que se ficarmos olhando para o que estamos perdendo, não veremos a oportunidade que temos para ganhar uma vida com mais significado e plenitude.

Recentemente, recebi a tradução de uma entrevista do Lama Budista Dzongsar Khyentse Rinpoche para o jornal butanês Kuensel com o título "As coisas não parecem bem. Mas há muito que podemos fazer".

Na entrevista, Rinpoche nos dá uma perspectiva interessante da visão budista sobre este momento e algumas orientações de como atravessá-lo.

Deixo aqui com vocês a entrevista.

As coisas não parecem bem. Mas há muito que podemos fazer

29 de abril de 2020

Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche fala ao jornal Kuensel sobre o Coronavírus e o que nós podemos fazer para estabilizar nossas ansiedades e medos crescentes e por que o Butão tem sorte de ter um monarca visionário e empático que nos assegura e guia nesses tempos turbulentos.

P: O que você acha da pandemia do Coronavírus no mundo hoje?

Eu sou supostamente um budista que ouviu milhares de vezes sobre a impermanência e a incerteza das nossas vidas. Eu tenho até mesmo escrito e ensinado sobre isso durante grande parte da minha vida. Quando a Covid-19 chegou, percebi que esses ensinamentos não haviam realmente entrado no meu coração, e que eu os vinha ensinando sem acreditar totalmente neles. A Covid-19 tem nos feito sentir muito pequenos. Nós sempre pensamos que nossas vidas estão em nossas mãos. É por isso que vamos à escola e ganhamos dinheiro, pensando que isso nos dará o controle sobre nossas vidas. Mas aparentemente não. Quando um pequeno inseto nos atinge, nós ficamos de joelhos e sujeitos às mais primitivas soluções como lavar as mãos. Até mesmo países poderosos e sistemas formidáveis estão caindo.

É interessante que até mesmo as nações e instituições mais poderosas e supostamente sóbrias e bem estabelecidas estejam agora ocupadas culpando umas às outras por não fazerem cálculos corretos das infecções e mortes, como se fosse possível diante de tais circunstâncias inesperadas. Se nós tivéssemos sabido do Covid-19 um ano antes, nós teríamos testes melhores e poderíamos fazer cálculos mais acurados. Então o que esse jogo de culpar nos mostra, tanto no nível individual quanto no da nação, é o quão rapidamente culpamos os outros sempre que nos sentimos ameaçados.

É tão triste e desafortunado que tantas vidas sejam perdidas devido à Covid-19. Mas ainda mais amedrontador é a incerteza que isso produz, e nossa aparente inabilidade para aprender a partir do que está acontecendo e seguir adiante de forma diferente.

De Nova Iorque a Siliguli parece que todos estão falando sobre a economia e ter a vida de volta às coisas como de costume. Mas em vez disso, esse poderia de fato ser um ponto de virada no estado do nosso mundo em que podemos vir a ser corajosos o suficiente para não pensar em termos das coisas como de costume.

Pela primeira vez na memória, Deli tem um céu azul e ar puro, a emissão de gases de efeito estufa estão bem baixos, a água do Ganges está clara, e outras espécies podem sobreviver e ser elas mesmas. As estatísticas mostram que isso salvará muito mais vidas do que as perdidas devido à Covid-19. Então em vez de repor em marcha a velha economia, pode ser a hora de pensar num tipo diferente de economia.

A nossa é uma nação muito pequena e nós somos muito afortunados com nosso cuidadoso e dedicado rei, a administração tem feito e está fazendo um trabalho inacreditável protegendo nosso povo.

Mas agora também é a hora de nações grandes e poderosas o suficiente para mandar pessoas para a Lua - nações que realmente podem fazer grande diferença - serem mais humildes e menos arrogantes, pararem de ter a mentalidade de governar o mundo e fazerem as coisas de forma diferente. Por menor que sejamos, nossa nação poderia ser um exemplo de um novo caminho a seguir.

P: Compreensivelmente, há muito medo e ansiedade rondando. As pessoas estão com medo de contrair a Covid-19 ou apavoradas que alguém que elas amam possam contraí-la. Há algo que você possa compartilhar e que possa ajudar as pessoas a lidar com tais emoções e pensamentos?

Primeiramente, isso vai ser difícil para muitas pessoas. Mas também é algo que, em bem pouco tempo, podemos nos treinar para lidar.

É difícil porque há um perigo claro e presente com o vírus infectando muitas pessoas e o mundo inteiro entrando em colapso de diversas formas. Nessas situações, nossas mentes sempre tendem a filtrar as notícias e escolher a parte negativa.

Mas mesmo que a situação seja certamente muito precária, há muito que podemos fazer. Primeiro, nós podemos tomar precauções. Médicos e outros especialistas têm nos dito as muitas formas de nos cuidarmos. E podemos lembrar a nós mesmos que muitas das pessoas infectadas também estão se curando.

Num nível mais profundo, podemos perceber o quão frequentemente olhamos para os problemas da nossa vida de apenas um ângulo. Mas nós não temos que escolher essa abordagem tão estreita e limitada.

Parte da aprendizagem em nossas vidas é sempre aprender como se adaptar a novas situações. E aqui isso significa lidar não apenas com a situação pandêmica imediata, mas também com o que vai acontecer após a pandemia.

Então nós não temos que necessariamente pensar como isso vai atingir nossa economia ou danificar nossa forma de viver. Em vez disso, nós sempre podemos pensar que isso vai mudar o modo como nós vivemos. E nós podemos estar certos que muito dessas mudanças podem ser muito positivas, não apenas individualmente, mas também para todos os habitantes da Terra.

Nas últimas décadas, nós perdemos muito a consciência de como cuidar de nós mesmos e como cuidar da nossa Terra - principalmente em função de termos essa ganância inacreditável e irracional. Muitos de nós podem até ter se tornado o que chamamos de "mais ricos" - em outras palavras, podemos ter um saldo bancário maior ou uma casa maior.

E, ainda assim, nós não conseguimos realmente apreciar nossas vidas. Muito menos a simples riqueza de nossa vida presente momento a momento. Nós nunca conseguimos nem ler os livros que sempre quisemos ler ou ouvir as músicas que sempre quisemos ouvir.

Por ora, estou certo que a ansiedade e a preocupação virão. Mas às vezes, quando isso acontece, nós nem mesmo estamos conscientes de que isso é ansiedade. Em vez disso, nós estamos sempre tentando consertar, resolver e encontrar uma resposta para o problema que achamos que está causando a ansiedade.

Ao contrário, nós poderíamos apenas observar essa ansiedade sem procurar por uma resposta ou solução, e até mesmo sem procurar o porquê da ansiedade estar ali ou julgar se ela é válida ou inválida. Se pudermos apenas olhar e observar a preocupação e a ansiedade que sentimos, nós encontraremos nela o tesouro de nossa assim chamada rica e infinita "vida".

A maioria de nós no Butão é budista e alguns de nós são hindus. Qualquer que seja a tradição espiritual que você siga, tire vantagem de ter essa riqueza da fé e da devoção. Reze aos Budas e Bodisatvas, aos deuses e deusas. Reze não apenas para superar esta presente crise. Reze para que, o que quer que aconteça - possa isso nos levar a um bem maior - não apenas para nós mesmos, mas também para as próximas gerações.

P: Como budistas, como podemos encontrar um equilíbrio entre aceitar o quão pouco controle temos nesse tipo de situação e não deixar a aceitação se transformar em falta de esperança?

Essencialmente, o Buda nos ensinou a estar conscientes da verdade. Conhecer a verdade, viver com a verdade, aceitar a verdade, e render-se à verdade nos liberta de todos os tipos de expectativas, suposições, esperanças, medos e planos. Isso começa individualmente conosco.

Então nós podemos começar aceitando com humildade que nem tudo que está sob nosso controle e que nem tudo o que valorizamos agora de forma tão insaciável é de fato tão valioso. Fazendo isso, nós já saberemos como viver nesta Terra humildemente, harmoniosamente, de forma sensata e saudável.

P: Como nação e cidadãos do mundo, como devemos responder à pandemia do Coronavírus?

Como nação, nós temos sorte de ter um rei visionário, cuidadoso e dedicado. Estou certo de que nós sairemos da crise atual. Mas eu também estou certo de que nós todos devemos agora pensar adiante em como continuaremos após o Coronavírus, num mundo já muito alterado. Então talvez esta seja uma boa oportunidade para reenfatizarmos, recarregarmos e reiniciarmos a visão da Felicidade Nacional Bruta.

P: Rinpoche está atualmente em confinamento na Índia, em Bir. O que você faz para passar o tempo?

Eu passo minha vida de confinamento com a ansiedade do desconhecido e esperando a cada dia e a cada momento que alguém tenha encontrado algum tipo de solução. Como budista, eu pratico, contemplo e rezo aos Budas e Bodisatvas para que nos libertem não apenas desta calamidade em particular, mas também de todas as calamidades externas, internas e secretas que estão acontecendo agora e que virão no futuro. Eu também estou conseguindo ler livros que eu nunca tive tempo, mas sempre quis ler.

Por: Alexandre Saioro

Alexandre Saioro é instrutor do Centro Budista Chagdud Gonpa Dechen Ling em Nova Friburgo (www.chagdud.org).

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